segunda-feira, maio 07, 2007

Delusive... Parte I


















"Already wounded...i wonder if i would dare to be
stabbed by the thorns of virtue
Such a sight, petite and illegal...
a specimen of beauty in shapeless splendour
Haunted by her image in blank dismay, i kiss and embrace the dreaming
adventure
Of the dainty, delusive doll... Seeping into the tunnel of reality..."

Ole Alexander Myrholt















O dia seguinte...


O mundo em que vivemos, parece em raras ocasiões dar pequenas mostras de um outro, imaterial, o imperceptível aos sentidos tentando se mostrar através das sensações. Uma espécie de mundo etéreo como o que vemos através de uma janela turva num dia de neblina. Alguns dos seres que vemos caminhar no sangue e ossos da existência parecem pertencer àquele, não a este mundo carnal. Parecem se perder, pouco a pouco, quase desaparecendo da realidade.

Ela não pertencia à realidade.

Quando se encontrava nesse estado de fuga da essência, era de uma beleza singular. Entretanto, era acordada por quase qualquer ruptura desse estado brumoso. Nesses momentos, parecia nascer novamente, e cada vez que isso acontecia era como uma ligação entre o mundo etéreo e o carnal, o despertar parecia trazê-la de volta. Um nascimento de pureza repetido muitas vezes ao dia.

Alegre, vivaz, de um sorriso e silêncio enigmáticos. Devaneios em forma de ninfa. Formas que realçavam o som das risadas e os gestos delicados. Forma que realçava o espírito, jovial e profundo. Melancólico até, porém, daquela melancolia doce, que envolve. Qualquer espécie de dândi romântico seria ingenuamente tomado de assalto. Assim foi com nosso herói à espera daquele fino espírito em doce corpo. Aquele ser parecia se desmanchar ao menor toque, parecia distante como Clélia de Fabrice. Espírito inquieto e corredio, distante, fugaz.

A expectativa desvirtuada, cega. Sem ter nada a sustentando que não a célebre esperança. Por vezes enganado, tendo a impressão de a ver. Um susto. Olhava para trás julgando ser o momento de sorrir.

Ainda não.






O dia anterior...

Havia a conhecido um dia antes. Noite esparsa, de pensamentos vagos, risada solta. Começou como sempre, da tarde desperdiçada em conversas vazias e leituras fugidias. Aos poucos as pessoas iam chegando, sempre a afável rotina. Cada um com uma garrafa diferente. Paliativos para todas essas vidas incompletas. O jogo ajudava sempre. Chegavam aos poucos, conhecidos ou não, naquele amontoado de almas e carnes.

Completa desconhecida. Algo na espécie de timidez, sorriso discreto chamou a atenção. O olhar levemente baixo. Sereno, mas não daquela serenidade que aflora nos sorrisos de desprezo, o tédio demonstrado desses que evidenciam almas – hoje cada vez mais comuns do que outrora – descabidas de qualquer apreço pela espécie humana. Um olhar baixo sereno, que parecia se importar com algo. Pareciam semelhantes.

Queria abraçar aquele corpo.

Sabia, porém, que destruiria não somente a sua, mas a vida dela também. Tinha certeza, no momento que a viu. Não havia como explicar, nem havia porquê. Mas bastaria um passo à frente. O roçar de lábios - após trombadas e eventualidades - concretizaria anos juntos. Tivera essa sensação antes, mas nunca dessa forma. Das outras vezes cedera aos instintos. Lembrava, entretanto, das conseqüências dessa entrega anteriormente. Repassava todos aqueles rostos belos, banhados em lágrimas devido às suas palavras, gestos e ações. Recordava também o desespero das vezes que fora vitimado pelo abandono dessas belas damas.

Teriam ocasiões boas, engraçadas, irascíveis, estúpidas, como qualquer casal. Pentearia os cabelos dela, ao que ela perguntaria: faria isso todas as noites? Silêncio e sorriso. Pareço um idiota? Penteá-la todas as noites? – ele pensaria. Haveria uma coisa que poderia ser chamada período de enjoamento. O casal novo recém formado tem uma paciência eterna, palavras doces, por muitas vezes infantis. Isso acaba logo. Depois, a vida começaria aos poucos, imperceptivelmente a lembrar um convento, e os amigos que tentam afastar essa religiosidade desvirtuada, teriam de ser afastados. A patologia é grave.

Teriam uma planta, um bichinho de pelúcia. Objeto abjeto este, que teria cuidados especiais, trata-se da primeira fase, o abjeto necessita atenções exclusivas. A coisa torna-se uma brincadeira de bonecas e maridinho. A segunda fase é a armadilha, o bebê. Iriam ao teatro, cinema, museu... Nos lugares menos apropriados ele veria lógica e metafísica, e, enquanto ela elogiaria um belo quadro, ele notaria apenas cores numa moldura feia. Afinal, homens são desagradáveis; é o papel masculino. Ou acaso o príncipe nunca tira aquelas botas douradas?

O famigerado desempenho macho, que cada vez mais parece ser uma espécie de arrimo na vida femínea. O varão ideal tem de ser engraçado, sensível, compreensível, além das obviedades - máquina sexual e financeira... Não há de se ser espirituoso, precisa ter um humor simples e funcional. Incidentemente seremos todos – perdoem as leitoras – palhaços? Bufões, bobos da corte? Nossa função é fazê-las rir? Sensibilidade e compreensão. Estas nobres virtudes não parecem lembrar as de um abnegado analista ou psicólogo? Seria a complexa função máscula fazer a consorte esquecer o quanto a vida e a existência são inúteis? Além é claro, dos papéis de caçador e provedor de filhos. Atualmente estes deveres são vistos como banco pessoal e fonte de prazer puro e banal.

Meses passariam, começaria a mais clássica das reclamações: não estamos conversando. A convivência extremada, o dia a dia, faz com que as pessoas tenham a total cumplicidade idiota do tédio de relacionamento. A presença da pessoa não causa mais aquela sensação boa de antes, o fato da sujeita teoricamente gostar de nós não faz que fiquemos felizes com isso. Acostumamos rápido às coisas boas. Enquanto às vezes, nos detemos a vida toda numa coisinha ruim. Alguns chegam mesmo a desistir da existência, tamanha valoração que colocam num fato negativo. Não chegam nem considerar o fato da negatividade ser um não-ser.

Silêncio. Habituamo-nos, aliás, alianças muitas vezes surgem nesse espaço.

Além das sensações nem sempre agradáveis ocorridas no mundo empírico e psicológico, sentiria-se metafisicamente mal. Quando pensava que naquele instante, no seguinte, no outro, ou quem sabe por toda a eternidade não a possuiria, tornava-se uma espécie de impaciência eterna o que sentia. Ela ofuscaria os pensamentos dele. Eventualmente houvesse naquele ser atormentado a certeza de que ela estaria junto a ele no próximo momento, no outro e pela eternidade, certamente não teria a fleuma suficiente para estar perto dela sem arder em desejo, mas possuiria a confiança necessária para permanecer calmo ao seu lado.

Repousaria sobre seus ombros, sem que sentisse qualquer peso, as suaves formas mal o tocariam, a pele lívida, deslumbrante como a primeira neve da infância e tão escorregadia que os olhos quase não conseguiriam repousar, deslizariam não fosse o levíssimo suspiro, quase imperceptível. Beijaria com prolixidade, como a nuvem da transfiguração, livre como uma brisa, delicadamente, beijos fugazes como ela, suaves e tranqüilos, intensos.

Aquele olhar enigmático, porém, permanecia em sua frente. Conversava sem saber exatamente oque falava, mas parecia estar sendo agradável, pelas respostas que obtinha. Sabia se encontrar irremediavelmente apaixonado. O caso é: depois de se aproximarem, depois do fatídico beijo teriam uma longa história fadada ao fracasso. Os olhares se cruzaram, mais intensos que nas outras vezes. Desejou como nunca lhe tocar os lábios. Contudo, a fuga voltava. Havia sofrido demais com as "mulheres de sua vida" de outrora. Não precisava de outra decepção. Bastava as que tivera anteriormente.

Virou as costas e foi embora.






O dia seguinte...

A espera desvirtuada, cega. Sem ter nada sustentando a não ser a célebre esperança. Por vezes enganado, tendo a impressão de a ver. Um susto. Olhava para trás julgando ser o momento de sorrir. Arrependeu-se de ter ido para a casa na noite anterior, aquele virar as costas, uma clara fuga em lá maior. Dormira mal. Isso no caso de ser considerado sono o que prestigiou. Precisava vê-la novamente, a qualquer custo, dependeria da sorte para isso. O acaso sempre pareceu ser seu aliado e único confidente. Não podia ao menos contar com a ajuda de algum conselho, não poderia confirmar a sua vontade ou ceder à sua teimosia pela falta de um confidente.

Lá estava ele, livro em punhos, a mente não. Lembrava de cada palavra proferida por ela. Um ponto em especial chamava a atenção. Olhos são janelas para a alma? Se assim, esperava nunca ser fitado. Pra não ser visto em sua pequenez. Ficasse com a impressão primeira, fosse qual fosse, não deveria querer conhecer a realidade. Nem mesmo ele saberia dizer como era sua alma. Tinha medo de nela ser encontrado qualquer motivo de desagrado.

Momento de lucidez; resolvera deixar os acontecimentos fluírem, caso fosse auxiliado pela sorte, não perderia a oportunidade como fizera na noite anterior, deixaria assim a sua vigília de lado e sairia tranqüilamente a andar sem nenhuma idéia sobre relacionamentos nem pessoas. No lúcido instante seguinte, ela chegou-se. Sorriso resplandecente, como se estivesse à procura dele. Conversaram, riram, exatamente como na noite anterior. Hora de ir embora; a levou até a casa, perto de onde estavam. Adeus contido, naquela hora, como que foi empurrado a beijar-lhe os lábios.

Dessa vez não virara as costas à vida.


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domingo, maio 06, 2007

Delusive... Parte II







"A derrocada"


























Primeiro ganhou um beijo, em seguida levou um grande tabefe. Sua musa era noiva.










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sábado, maio 05, 2007

Delusive... Parte III









Encontros e desencontros, ilusões. Onde levarão?












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