quinta-feira, setembro 21, 2006

O Errante e a Distância...


"Distância

do Lat. distantia

s. f.,

espaço entre duas pessoas ou coisas"

Sentado, à espera de algum acontecimento, sentia-se como Cristo na cruz. A desesperança era maior que a do messias bradando ter sido abandonado. Sentia-se um espírito, olhando os vivos, diferentes dele. Sentia ódio de si mesmo por estar naquela situação, sabia, afinal, ser sua culpa. Culpava o acaso e o maldito destino de ter nascido. Quisera que seu pai tivesse gozado na boca de sua mãe, assim iria ser apenas uma semente diluída num estômago qualquer.

Pessoas mais velhas ao seu redor. Sentia certa inveja delas. Haviam percorrido a estrada que ele mesmo atravessaria, pareciam felizes. Sorrisos enrugados, gargalhadas sonoras. Afora o fato de parecer que faziam isso apenas para caçoar de sua expressão insone, conversaria com eles. Chovia. Cada pingo martelando na sua cabeça. Cada pingo lembrando de dias passados. Pensava que os velhos pareciam felizes por não possuir mais paixões, as vontades, déspotas de nossa insaciedade, que tanto nos faz frustrar. Trazendo o sentimento de impossibilidade da felicidade. Na velhice isso parece padecer, adormecer com o resto das forças.

Quem sabe tratamento de choque não surtisse esse efeito. Esfriava. Sempre que isso ocorria, relembrava fatos do passado, pessoas. Fazia dois anos que não via seu amor, ela ficara na cidade antiga, com os hábitos, ocasiões e tudo mais que nos prende às vezes por décadas num mesmo lugar. Dois anos e a chuva permanecia inalterada neste lugar, parecia que sempre chovia da mesma forma, os mesmos sons, os mesmos cheiros. Poças de água cinzenta e marrom nos mesmos lugares. Tudo igual. Ouvia a mesma música, que eles haviam combinado escutar enquanto dirigiam sem rumo, por aquela mesma chuva.

Aquela música que inspirava ódio nele, vontade de dançar nela. Que fazia ele se sentir revigorado, que acabava com ela. Tão iguais. Os únicos no mundo a se entender? Porque havia sido burro a ponto de optar pela segurança? Um casamento estável vale mais que uma grande paixão?

Tentava aceitar uma ordem de idéias melhores. Aquele assunto já havia sido discutido consigo mesmo infinitas vezes. Não poderia fazer mais do que se lamentar. Ficou muito tempo nessa espécie de exercício de auto-sobrevivência. Consolava-se de um pensamento com outro, este desenganado aquele. Aquele desenganando o outro. Brincava com a sua própria mente. Havia dias que procurava um sem resposta. Mas nunca encontrava.

As pessoas ao seu redor pareciam felizes. Não sabia como, havia chegado até uma lanchonete, perto de onde estava. Não percebia mais as causalidades da vida. Não percebia as simples ações que cometia. Era um errante guiado de forma autônoma por si mesmo. Não se permitia julgar as pessoas pelos risos em uma mesa de bar, mas parecia estar entre gente alegre, isso o irritava. Essas ocasiões sempre avivam fatos passados alegres, a afeição dos outros duplica a própria, para seu consolo, julgava serem tolos tristes no lugar.

Não me parece que explique bem a situação deste ser àquele lugar, àquela situação, porém, ainda é propício para o fogo que vai ser o destino final destas linhas, e não só delas. Lembrava-se ainda dos velhos sorridentes de pouco tempo atrás, a velhice, apesar da falta de paixões, ou talvez por isso mesmo, parecia ser um fardo, ofício cansativo.

Não há cabimento no descrever o resto dos pensamentos contraditórios daquele ser, leve o diabo tais pensamentos. Voltavam os velhos, como, apesar das misérias que haviam assistido conseguiam ao menos fingir alegria? Olhava para seus pálidos dedos. Gostava do modo como as mangas cobriam metade de sua mão. Lembrava da sua última alegria. A última vez que se viram. Ela não havia ainda falado aquelas três palavras tão simples, mas que deixam qualquer ser ébrio e com falta de ar. Nunca chegou a dizer, porém, todas as que empregava vinham a dar nelas, todos os olhares na mesma direção.

Sobrevinham as lágrimas. Olhava para si no espelho, sempre tivera tédio dos fracos. Contraditório que era, não podia deixar de ser diferente.

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Obrigado à belíssima senhorita Mayara Santiago pela foto, que eu coloquei aqui sem autorização.

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sexta-feira, setembro 01, 2006

Desespero... Parte I



“Moonless night in the small town...”

Um bando de nada. Casas agrupadas em poucas ruas, a principal asfaltada. Numa delas, simplória, uma gestante. Pra nascer, tiveram de levá-la rumo à cidade vizinha. Foi no rumo que nascera o poeta deste conto, na imensidão desoladora dos campos. Dizem que o choro foi ouvido a muita distância.

Havia tempos queria abandonar aquela cidadela do interior. Não produzira nada útil naqueles anos todos. Estava longe de ser um peão, um simplório qualquer. Afora a ingenuidade que somente poderia perder anos depois, podia do alto de seus vinte invernos analisar com certa austeridade a existência.

Calado, soturno, nunca tivera muitos amigos. Quem sabe devido a isso, seus maiores companheiros foram os livros que por sorte herdara de seu avô. A mãe, uma professora primária havia sido muito mais um estorvo do que incentivo, olhava para ela, sempre lendo, nunca quis se parecer aquela mulher solitária e triste.

Pelos quatorze anos começara a escrever. Trancava-se em seu quarto, se esquecia do mundo. Nunca mostrava seus versos iniciantes a ninguém, estavam eternamente destinados alguma gaveta cheirando a mofo. Foi a vontade de tirá-los de lá que fez surgir a resolução de partir para a capital. Isto, e o motivo que tantas mudanças já proporcionaram a rapazes frágeis como aquele. Um coração partido.

Garota fútil, descompromissada com nada que não fosse o intento de ser mais bonita que as suas companheiras, da única escola presente na cidade. Olhava as revistas de moda e queria ser como as modelos. Tinha os mais grandiosos sonhos. Casar, ter filhos e ser feliz. Quando, numa festa foi falar com o rapaz de nossa história, e esse, devido à curiosidade de leituras diversas, sabia do que se tratavam as grifes que ela vomitava, enamorou-se no mesmo instante.

Quando ela começou a se aventurar com o filho do prefeito, depois que este ganhou uma camionete nova, nosso herói viu seus sonhos partidos em pedaços. Resolvera o que a tanto tempo estava encubado em sua mente; iria para a capital, estudaria, ganharia dinheiro e publicaria livros. Seria respeitado e se vingaria, agraciando o verdadeiro amor de alguma mulher inteligente.

Faltava somente um detalhe, não tinha condições para isso, muito menos o consentimento de sua solitária mãe. Parecia uma questão indissolúvel. Foi quando começou a perceber que o mundo real era bem pior do que imaginava. O único bem que possuía eram justamente os livros herdados do avô, que este juntou por toda a vida e que lera com tanto carinho. Desfez-se dos mesmos e a quantia fora desanimadora. Poderia ficar poucos meses na capital, teria de economizar o quanto fosse possível, além de arranjar um emprego qualquer.

Por sorte, um conhecido estava lá fazia algum tempo, mandou-lhe uma carta, solicitando informação sobre qualquer lugar onde pudesse morar. O tal amigo cursava medicina, indicou a honesta casa de uma enfermeira, onde ele poderia se instalar por um preço bem convidativo. O menor possível.

Quinze dias depois, malas prontas, a mãe aos prantos, nem sequer foi até a rodoviária. Ficou em casa pensando que tivera o filho por tanto tempo, ali, no quarto e nunca tinha ido saber quem era aquele estranho que tanto lia e escrevia por detrás daquela porta, analisava cadacentímetro vazio e só não morreu naquele instante porque tinha esperança de ver o filho de volta algum dia, tornou-se crédula depois disso. Todos os dias rezava pela saúde e bem estar do filho.

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