Chegando à cidade, reparava que a pobreza poderia ser maior do que naquela cidadezinha. O ônibus passava por mendigos e mais mendigos, quem sabe, como ele, fossem todos fugitivos de alguma terra árida. No caso dele, fugitivo de espíritos áridos. Ali poderia encontrar as grandes mentes, seus únicos amigos com os quais tinha conversas intermináveis em seus pensamentos.
Na estação do ônibus, seu conhecido, anos envelhecido, muito mais do que os que permanecera na capital. Seu primeiro pensamento no novo lar foi de que aquele lugar envelhecia as pessoas mais depressa.
A visão de sua nova morada foi desoladora. Não esperava nenhuma residência luxuosa, fora precavido disso. Porém, uma espécie de asilo ia longe de sua imaginação. Um sobrado antigo, de um verde indistinguível, velhos arbustos na frente. Pensava que deveria ter enveredado para os livros de terror, assim teria forte inspiração naquele lugar isolado dos grandes prédios que vira no centro.
À porta, atendeu um pequeno garotinho, branco como a roupa da mulher que vinha atrás, o menino saiu correndo e se perdeu atrás de um corredor. À primeira vista, parecia-se com sua mãe, mais magra. Deveria ter sido imensamente bonita uns dez anos atrás. Entrando, ficara mais animado devido ao asseio e silêncio do local. Vira vultos, mas não se atreveu a perguntar quem eram aquelas pessoas. Sabia que haviam mais moradores na casa, cria não ser de sua conta as perguntas.
Foi apresentado ao banheiro. Enorme, de um verde escuro, uma grande banheira que não devia ser usada a pelo menos uns trinta anos. Havia algumas barras na parede, imaginava serem destinadas a algum deficiente no local. Depois, a cozinha, poderia cozinhar se quisesse, mas teria de limpar cada coisa que sujasse. Subiram umas escadas rangentes. Um corredor estreito e comprido.
Na frente de seu quarto, uma porta aberta, uma moça trocava de roupa, deveria ter uns 16 anos. Alta, esguia, cabelos castanhos, num quarto que diferia do resto da casa pelo novo dos móveis e decoração. A moça pareceu fingir um susto, gritou com a “tia”. Correu até a porta com uma minúscula toalha emergencial e quando a mãe se virou, deu um leve sorrisinho. Bateu a porta com força.
A senhora pediu desculpas pelos modos da sobrinha, enquanto abria a porta do que viria a ser a próxima morada do escritor. Era grotesco, úmido, pequeno, escuro, frio. Uma cama improvisada, um guarda roupas que barrava a entrada da porta, um pequeno rádio de pilhas – que parecia não funcionar – em cima de uma pequena escrivaninha e prateleiras nas paredes. Estas que não mais poderiam ser preenchidas por seus livros.
O que mais de marcante se mostrava era o colchão com uma enorme macha escura no meio. Parecia que alguém havia sido eviscerado naquele colchão, há bem pouco tempo.
Fechou-se a porta em suas costas, largou as mochilas no chão derramou as primeiras de muitas lágrimas que viriam conhecer a gênese a partir daqueles olhos. Enojou-se de tudo naquela cidade. Aquela casa, aquele quarto.
Não tinha mais a companhia de seus “amigos”. Trocou todos eles por aquela vida de imundície. Se pudesse, trocaria o quarto pelo banheiro. Menino mimado que era, não pensou na hipótese dele mesmo limpar, viria a descobrir dias depois que seria o responsável por si e seus cuidados.
A única coisa que o consolara e que o fez dormir naquele dia foi o ligeiro sorriso da moça. Numa fração de segundos ela esboçara a última reação que esperava ver. Lembrava em muito a menina fútil que fora a causadora dele estar naquele maldito lugar, por isto talvez, a odiava. Tinha apenas uma grande vontade de possuí-la, nem que fosse à força. Sua mente católica, com o correr destes pensamentos, sentia-se envergonhada e suja.
Alguns dias decorreram até conhecer os outros moradores da casa, suas respectivas funções – ou falta delas – e a insanidade daquela casa. Parecia um local amaldiçoado. Nunca conhecera tanta tragédia junto.
Moravam lá dois casais. O primeiro; a dona da casa e seu marido. Esta era a enfermeira que o recepcionou, Mandava em todos, sustentava a casa sozinha. Trabalhava o dia inteiro em um hospital de queimados. Quando chegava em casa, limpava alguma coisa, pegava uma pequena taça de chá e se recolhia de chinelos para a frente da TV. Assistia alguma futilidade e ia dormir.
Todos os dias, a mesma rotina. Alguém poderia sem problemas ajustar as horas de seu relógio pelas passadas ouvidas no andar de baixo, onde ficava seu quarto. Deveria ter sido bela, mas com o passar dos dias, via que sua presença era menos marcante nas ruas. Belas pernas, fortes, cabelos pretos bem tratados. Achava mais, poderia ter sido modelo se quisesse, ou quem sabe, tivesse tido mais sorte na vida. A voz era de uma suave rouquidão.

















