segunda-feira, maio 07, 2007

Delusive... Parte I


















"Already wounded...i wonder if i would dare to be
stabbed by the thorns of virtue
Such a sight, petite and illegal...
a specimen of beauty in shapeless splendour
Haunted by her image in blank dismay, i kiss and embrace the dreaming
adventure
Of the dainty, delusive doll... Seeping into the tunnel of reality..."

Ole Alexander Myrholt















O dia seguinte...


O mundo em que vivemos, parece em raras ocasiões dar pequenas mostras de um outro, imaterial, o imperceptível aos sentidos tentando se mostrar através das sensações. Uma espécie de mundo etéreo como o que vemos através de uma janela turva num dia de neblina. Alguns dos seres que vemos caminhar no sangue e ossos da existência parecem pertencer àquele, não a este mundo carnal. Parecem se perder, pouco a pouco, quase desaparecendo da realidade.

Ela não pertencia à realidade.

Quando se encontrava nesse estado de fuga da essência, era de uma beleza singular. Entretanto, era acordada por quase qualquer ruptura desse estado brumoso. Nesses momentos, parecia nascer novamente, e cada vez que isso acontecia era como uma ligação entre o mundo etéreo e o carnal, o despertar parecia trazê-la de volta. Um nascimento de pureza repetido muitas vezes ao dia.

Alegre, vivaz, de um sorriso e silêncio enigmáticos. Devaneios em forma de ninfa. Formas que realçavam o som das risadas e os gestos delicados. Forma que realçava o espírito, jovial e profundo. Melancólico até, porém, daquela melancolia doce, que envolve. Qualquer espécie de dândi romântico seria ingenuamente tomado de assalto. Assim foi com nosso herói à espera daquele fino espírito em doce corpo. Aquele ser parecia se desmanchar ao menor toque, parecia distante como Clélia de Fabrice. Espírito inquieto e corredio, distante, fugaz.

A expectativa desvirtuada, cega. Sem ter nada a sustentando que não a célebre esperança. Por vezes enganado, tendo a impressão de a ver. Um susto. Olhava para trás julgando ser o momento de sorrir.

Ainda não.






O dia anterior...

Havia a conhecido um dia antes. Noite esparsa, de pensamentos vagos, risada solta. Começou como sempre, da tarde desperdiçada em conversas vazias e leituras fugidias. Aos poucos as pessoas iam chegando, sempre a afável rotina. Cada um com uma garrafa diferente. Paliativos para todas essas vidas incompletas. O jogo ajudava sempre. Chegavam aos poucos, conhecidos ou não, naquele amontoado de almas e carnes.

Completa desconhecida. Algo na espécie de timidez, sorriso discreto chamou a atenção. O olhar levemente baixo. Sereno, mas não daquela serenidade que aflora nos sorrisos de desprezo, o tédio demonstrado desses que evidenciam almas – hoje cada vez mais comuns do que outrora – descabidas de qualquer apreço pela espécie humana. Um olhar baixo sereno, que parecia se importar com algo. Pareciam semelhantes.

Queria abraçar aquele corpo.

Sabia, porém, que destruiria não somente a sua, mas a vida dela também. Tinha certeza, no momento que a viu. Não havia como explicar, nem havia porquê. Mas bastaria um passo à frente. O roçar de lábios - após trombadas e eventualidades - concretizaria anos juntos. Tivera essa sensação antes, mas nunca dessa forma. Das outras vezes cedera aos instintos. Lembrava, entretanto, das conseqüências dessa entrega anteriormente. Repassava todos aqueles rostos belos, banhados em lágrimas devido às suas palavras, gestos e ações. Recordava também o desespero das vezes que fora vitimado pelo abandono dessas belas damas.

Teriam ocasiões boas, engraçadas, irascíveis, estúpidas, como qualquer casal. Pentearia os cabelos dela, ao que ela perguntaria: faria isso todas as noites? Silêncio e sorriso. Pareço um idiota? Penteá-la todas as noites? – ele pensaria. Haveria uma coisa que poderia ser chamada período de enjoamento. O casal novo recém formado tem uma paciência eterna, palavras doces, por muitas vezes infantis. Isso acaba logo. Depois, a vida começaria aos poucos, imperceptivelmente a lembrar um convento, e os amigos que tentam afastar essa religiosidade desvirtuada, teriam de ser afastados. A patologia é grave.

Teriam uma planta, um bichinho de pelúcia. Objeto abjeto este, que teria cuidados especiais, trata-se da primeira fase, o abjeto necessita atenções exclusivas. A coisa torna-se uma brincadeira de bonecas e maridinho. A segunda fase é a armadilha, o bebê. Iriam ao teatro, cinema, museu... Nos lugares menos apropriados ele veria lógica e metafísica, e, enquanto ela elogiaria um belo quadro, ele notaria apenas cores numa moldura feia. Afinal, homens são desagradáveis; é o papel masculino. Ou acaso o príncipe nunca tira aquelas botas douradas?

O famigerado desempenho macho, que cada vez mais parece ser uma espécie de arrimo na vida femínea. O varão ideal tem de ser engraçado, sensível, compreensível, além das obviedades - máquina sexual e financeira... Não há de se ser espirituoso, precisa ter um humor simples e funcional. Incidentemente seremos todos – perdoem as leitoras – palhaços? Bufões, bobos da corte? Nossa função é fazê-las rir? Sensibilidade e compreensão. Estas nobres virtudes não parecem lembrar as de um abnegado analista ou psicólogo? Seria a complexa função máscula fazer a consorte esquecer o quanto a vida e a existência são inúteis? Além é claro, dos papéis de caçador e provedor de filhos. Atualmente estes deveres são vistos como banco pessoal e fonte de prazer puro e banal.

Meses passariam, começaria a mais clássica das reclamações: não estamos conversando. A convivência extremada, o dia a dia, faz com que as pessoas tenham a total cumplicidade idiota do tédio de relacionamento. A presença da pessoa não causa mais aquela sensação boa de antes, o fato da sujeita teoricamente gostar de nós não faz que fiquemos felizes com isso. Acostumamos rápido às coisas boas. Enquanto às vezes, nos detemos a vida toda numa coisinha ruim. Alguns chegam mesmo a desistir da existência, tamanha valoração que colocam num fato negativo. Não chegam nem considerar o fato da negatividade ser um não-ser.

Silêncio. Habituamo-nos, aliás, alianças muitas vezes surgem nesse espaço.

Além das sensações nem sempre agradáveis ocorridas no mundo empírico e psicológico, sentiria-se metafisicamente mal. Quando pensava que naquele instante, no seguinte, no outro, ou quem sabe por toda a eternidade não a possuiria, tornava-se uma espécie de impaciência eterna o que sentia. Ela ofuscaria os pensamentos dele. Eventualmente houvesse naquele ser atormentado a certeza de que ela estaria junto a ele no próximo momento, no outro e pela eternidade, certamente não teria a fleuma suficiente para estar perto dela sem arder em desejo, mas possuiria a confiança necessária para permanecer calmo ao seu lado.

Repousaria sobre seus ombros, sem que sentisse qualquer peso, as suaves formas mal o tocariam, a pele lívida, deslumbrante como a primeira neve da infância e tão escorregadia que os olhos quase não conseguiriam repousar, deslizariam não fosse o levíssimo suspiro, quase imperceptível. Beijaria com prolixidade, como a nuvem da transfiguração, livre como uma brisa, delicadamente, beijos fugazes como ela, suaves e tranqüilos, intensos.

Aquele olhar enigmático, porém, permanecia em sua frente. Conversava sem saber exatamente oque falava, mas parecia estar sendo agradável, pelas respostas que obtinha. Sabia se encontrar irremediavelmente apaixonado. O caso é: depois de se aproximarem, depois do fatídico beijo teriam uma longa história fadada ao fracasso. Os olhares se cruzaram, mais intensos que nas outras vezes. Desejou como nunca lhe tocar os lábios. Contudo, a fuga voltava. Havia sofrido demais com as "mulheres de sua vida" de outrora. Não precisava de outra decepção. Bastava as que tivera anteriormente.

Virou as costas e foi embora.






O dia seguinte...

A espera desvirtuada, cega. Sem ter nada sustentando a não ser a célebre esperança. Por vezes enganado, tendo a impressão de a ver. Um susto. Olhava para trás julgando ser o momento de sorrir. Arrependeu-se de ter ido para a casa na noite anterior, aquele virar as costas, uma clara fuga em lá maior. Dormira mal. Isso no caso de ser considerado sono o que prestigiou. Precisava vê-la novamente, a qualquer custo, dependeria da sorte para isso. O acaso sempre pareceu ser seu aliado e único confidente. Não podia ao menos contar com a ajuda de algum conselho, não poderia confirmar a sua vontade ou ceder à sua teimosia pela falta de um confidente.

Lá estava ele, livro em punhos, a mente não. Lembrava de cada palavra proferida por ela. Um ponto em especial chamava a atenção. Olhos são janelas para a alma? Se assim, esperava nunca ser fitado. Pra não ser visto em sua pequenez. Ficasse com a impressão primeira, fosse qual fosse, não deveria querer conhecer a realidade. Nem mesmo ele saberia dizer como era sua alma. Tinha medo de nela ser encontrado qualquer motivo de desagrado.

Momento de lucidez; resolvera deixar os acontecimentos fluírem, caso fosse auxiliado pela sorte, não perderia a oportunidade como fizera na noite anterior, deixaria assim a sua vigília de lado e sairia tranqüilamente a andar sem nenhuma idéia sobre relacionamentos nem pessoas. No lúcido instante seguinte, ela chegou-se. Sorriso resplandecente, como se estivesse à procura dele. Conversaram, riram, exatamente como na noite anterior. Hora de ir embora; a levou até a casa, perto de onde estavam. Adeus contido, naquela hora, como que foi empurrado a beijar-lhe os lábios.

Dessa vez não virara as costas à vida.


...

domingo, maio 06, 2007

Delusive... Parte II







"A derrocada"


























Primeiro ganhou um beijo, em seguida levou um grande tabefe. Sua musa era noiva.










...

sábado, maio 05, 2007

Delusive... Parte III









Encontros e desencontros, ilusões. Onde levarão?












...

segunda-feira, fevereiro 19, 2007

Furtado, ou... Nem um Minuto a Mais... Parte I






Redação





Um pobre rapaz ignorante. Nós, velhacos da redação, o chamávamos Furtado, seu sobrenome. Gracejávamos todos que havia um estigma de família naquele nome. Todas as coisas boas pareciam se esvair da existência daquele pobre ajudante. Redação abafada, ninguém atrevia a tratar-se por "tu" e menos ainda pelo primeiro nome. Como dito, era auxiliar o pobre, carregava papéis, redigia documentos e cartas, trazia café, fazia nada, raras vezes escrevia uma coluna, ria das migalhas de espírito que deixávamos chegar até ele.

Porque isso? Porque queríamos. Ninguém "de fora", como o considerávamos, podia partilhar de nossas conjecturas. Por exemplo; certo dia nada havia para falarmos mal da oposição, chegou o Almeida, atrasado e sujo como sempre e perguntamos-lhe: "caríssimo Almeida, quem achas o mais feio e desagradável de nossos inimigos?". Escolheu um deputado que andava com ares de chegar a senador, de um pronto tornou-se ele nossa vítima, o coitado era um desses casos quase únicos de político honesto, mas, infelizmente – para ele – caíra nas asas do acaso e do senso estético do Almeida. Em uma semana arranjamos as mais desgraçadas mentiras para destruir o homem, corrupção, desonestidade em geral, coisas que fariam o diabo parecer inocente , e, por sugestão do Gouveia, o golpe final: uma amante. Esse refino de maldade foi apenas sadismo, queríamos ver se destronaríamos a única glória do "feioso", a de ter uma bela mulher.

Este caso bem mostra como deveríamos ser cuidadosos em relação à qualquer pessoa, mesmo nosso primeiro ajudante, ainda mais por saber que era honesto o pobre. Por vezes tinha de cobrir a coluna de algum de nós que estava "doente", decerto o verdadeiro paradeiro era alguma casa de jogo, nos braços de uma puta. Assim, Furtado mesmo quando o acaso - e a nossa preguiça – botava em suas mãos uma coluna, não era ele quem recebia os créditos. Pior foi a ocasião em que o Oliveira ficou doente e Furtado teve de fazer uma grande matéria, o menino dedicou-se dia e noite, conseguiu informações e fatos reais - o que era o mais impressionante - e acabou por desbancar uma grande trama corrupta. Pena o líder desta ser um um coitado, sem expressão alguma no partido inimigo. Se houvesse o texto caído na mão de qualquer um de nós, teríamos colocado frente à matilha algum figurão, que, no mínimo destruiríamos e bem seria capaz dele vir humilhar-se em nossa porta, dando-nos muito dinheiro para calarmos sobre o assunto e fazer a matéria cair no esquecimento, infelizmente, estávamos todos bêbados nos divertindo com bebidas e prostitutas no dia anterior à publicação.

Acontece que, como o "chefe" era um "laranja" qualquer, a oposição prontamente o destituiu, ainda mais, o Oliveira ganhou um belíssimo prêmio jornalístico, desses importantes, quem vêm recheados de dinheiro e que hoje em dia garante a tranquilidade do Oliveira no fim de seus dias em alguma praia, nunca mais voltou à redação. Furtado mais uma vez fez jus ao nome.

Na festa após a premiação um dos chefes do partido rival chegou pro Oliveira e disse: "ora caríssimo amigo", tratava-o como amigo de infância, em nosso ramo uma hora se fala que fulano vendeu a alma ao diabo, e, se fulano no dia seguinte não cumprimenta quem escreveu o artigo, logo é chamado intratável e descobre-se que não chegará a ser bom diplomata. Ao fim dessa conversa, o inimigo, “trêbado” que estava disse: "Oliveira, revela-nos quem foi que escreveu aquele artigo, bem sabemos que tuas linhas não têm aquele espírito e aquela fúria". Só havia raposas naquele antro, somente se enganaram num aspecto, explico: deram aquele prêmio por crerem ter o Oliveira descoberto um desses gênios precoces e o fosse usar frequentemente, queriam assim, com o substancial prêmio, afastar o velho, que contava nessa época mais de setenta.









...

quarta-feira, fevereiro 14, 2007

Furtado, ou... Nem um Minuto a Mais... Parte II












Nós, mais que ninguém conhecíamos a capacidade do Furtado, e por isso mesmo o mantínhamos na miséria, ele podia facilmente acabar com nossos empregos, ou quem sabe o "dono" do jornal exigisse "textos tão bons quanto os de Furtado", assim, o utilizávamos quando bem entendíamos. O pobre rapaz não nasceu para a glória, é cândido, honesto e não tem ambições, desses tolos que lêem um livro antes de criticá-lo, que vão a uma peça de teatro antes de escrever qualquer linha, sequer imaginava que falar mal ou bem dependia inteiramente dos interesses em jogo. Infortunamente, somente um de nós ficava "indisposto" para fazer uma crítica quando tratava-se de algo desprezível, pois, nunca adiantaria dizer ao nosso bom selvagem-gênio se devia falar mal ou bem de qualquer coisa, o pobre até mesmo cria que nós acreditávamos na posição política do jornal, era um defensor ardoroso das idéias que o partido pregava.


Entrou no jornal aliás, pelo fanatismo que tinha pelas suas convicções, seu tio, o "Furtadão", "dono" do jornal que em verdade era nosso, o admitira quando o jovem veio pra capital terminar seus estudos, ao ter conosco pela primeira vez decidimos fazê-lo um dos nossos, era de uma beleza transcendental, e assim poderíamos aproveitarmos-nos dele nas festas junto às indefesas raparigas. Porém, em pouco tempo percebemos o quanto tinha de genial dentro de si - e o quanto era tolo - com poucos olhares decidimos mante-lo na miséria e obscuridade, como dito, para que não nos superasse, o que facilmente aconteceria se alguém o despertasse com algumas aulas da miséria humana. De certa feita estávamos em uma reunião com pessoas poderosas do partido que nosso jornal defendia, celebridades e desconhecidos querendo aparecer, toda espécie de gente fútil e maquiavélica, foi quando uma atriz iniciante, sustentada na capital pelos pais do interior, de espírito fútil e pueril, não conhecendo nada do mundo e ao mesmo tempo tendo aquela espécie de "má-índole" que parece talento, sem nada a não ser a beleza encantadora. De cabelos escuros e curtos, pele alva e sorriso largo.


Conhecida minha, perguntou de onde havia saído aquele semi-deus tão tímido e calado. Para me divertir disse que aquele haveria de ser o nosso chefe em pouco tempo, dada a geniosidade e esperteza de um lince, sem contar o fato de ser sobrinho do proprietário de nosso jornal. Os olhos da menina ambiciosa brilharam ao associar-se tamanha beleza com um futuro e inteligência brilhantes, ela foi ter com o pobre e com a desenvoltura das atrizes conseguiu fazê-lo respingar algumas frases. Ela pobre, deve ter achado que o jeito tímido e calado era planejado, algo desconfiado das pessoas. De cara achou que era um belíssimo lobo em pele de cordeiro e enamorou-se, o rapaz, que nunca antes namorara, apaixonou-se em cinco minutos, amou-a mais do que se pode imaginar...


Existem dois tipos de amores, como já o bem disse Balzac, ou amamos a beleza, as glórias, personalidade e "heroísmo", ou amamos a pessoa, gostamos por gostar, infelizmente, para a má sorte de Furtado, a atriz era possuidora primeira qualidade de amor, desses que quando se vê o herói mitificado fazendo qualquer asneira os sentimentos se esvaem como areia entre os dedos. Porém, a tola não percebia em Furtado as tolices, cria ela que tratava-se de um ator nato, que procurava enganar a todos com seu jeito boçal.


Isso somente se reforçava quando ela lia os textos dele, viveram na mais completa adoração mútua por três meses... um dia, Furtado cometeu o erro fatal. Trouxe-a na redação. A atriz, Desiré, era dessas mulheres que, uma vez alimentadas pela paixão, tornam-se muito mais belas, nela a alegria potencializou a beleza como em Furtado potencializara o Gênio. Obviamente não poderíamos deixar aquele deslocado ficar com a bela dama. O que pensava ser aquele verme para ter tal beldade aos seus pés? Após a saída deles, não foram necessários mais que dois ou três olhares para que todos na redação decidissem-se sobre o que deveria acontecer.


Novamente as trágicas asas da tragédia davam sopro à vida de Furtado, os pais de Desiré morreram, o pobre tolo não tinha como ajudá-la quanto mais sustentá-la, porém, ainda havia nela a confiança na sua paixão interesseira, mas estúpida. Pouco tempo depois, quando ela veio até a redação novamente todos os acasos estavam ao nosso lado, facilmente percebemos tudo e demos um derradeiro fim nas ilusões..






...

segunda-feira, fevereiro 05, 2007

Furtado, ou... Nem um Minuto a Mais... Parte III






Furtado estava revisando os textos do Machado, os mais constantes em termos de erros. Instantes antes de ela chegar, ele saiu. Quando a vimos escapei rapidamente, os outros sabiam o que fazer. Quando começaram a gracejar sobre a estupidez de Furtado, que obviamente era falsa, ela ficou atônita, ao protestar sobre as belas colunas que ele escrevia, deram-lhe o golpe derradeiro. Depois de algumas risadas, fizeram-na crer que ele copiava os textos nossos e mostrava a ela como sendo dele. Nessa hora voltei, e ao ver sua cara de espanto, tive de empregar toda a minha arte para disfarçar as gargalhadas que ecoavam dentro de mim.


O golpe de misericórdia foi minha interpretação de culpa, dizendo-lhe que havia apenas feito uma brincadeira, que estava embriagado e que jamais suspeitara a possibilidade de ela não perceber de cara o quanto o pobre era inapto. Desesperada, Machado foi a consolar, o desgraçado, casado com uma mulher rica, sustenta até hoje Desiré, que ficou derradeiramente feliz ao descobrir o "verdadeiro" autor dos textos aos quais ela tinha dedicado tanta adoração. Furtado voltou mais tarde e trabalho normalmente, assim como todos nós. Ao perguntar do Machado, dissemos que tinha ido ajudar a irmã, que havia perdido o noivo. No dia seguinte ele não apareceu, pela primeira vez em anos. No seguinte percebemos que além de tudo era covarde demais para dar um fim à sua existência. Esse pobre coitado deveria é ser poeta, autor, pensava eu. Como a atriz estava avisada de que não deveria nos comprometer por termos "desmascarado" o "mendicante de nossos escritos", este se afeiçoou aos nossos consolos como se fôssemos todos seus pais e irmãos. Ele nunca esqueceu o ocorrido, mas, escravo que era dos costumes, continuou trabalhando normalmente, perdera sim um pouco da genialidade, mas servia perfeitamente ao nosso jornaleco e havia muito escrevia melhor que qualquer um de nós, verdadeiros donos do jornal.


Entretanto, creio que o mais interessante relato no qual o pobre honrou seu nome é o que vem a seguir. Certo dia Almeida conseguiu superar-se; elaborara uma farsa tão mal escrita, tão fantasiosa, que nessa única vez na vida envergonhou-se do próprio trabalho. Havia "inventado" uma rede de corrupção elaborada, aumentando fatos duvidosos contados por uma prostituta que ele sabia estar mentindo, afinal, todas essas mulheres parecem ter necessidade de inventar as mais variadas histórias para esconderem as próprias. A questão é que Almeida redigiu tão mal - e qualquer que lesse perceberia ser uma jocosa mentira - que decidiu fazer Furtado perder a virgindade como jornalista. Resolveu creditar o texto ao nosso herói.


Dia seguinte, houve um escândalo, conseguimos - com a ajuda da candura de nosso pobre - convencê-lo de que havíamos posto o seu nome naquela matéria porque ele não tinha experiência, enfim, éramos adorados por aquele pobre-diabo, bastaria que falássemos ser melhor assim. Entretanto, surpresa maior, o escândalo era verdadeiro, no mesmo dia, outro jornal publicara a mesma notícia com provas, a prostituta exercera bem a sua vingança. A diferença é que neste não havia os nomes citados e todos deram mais credibilidade à notícia do Furtado. Logo, planejava eu receber as honras e glórias pela "nossa descoberta" quando Furtado mesmo se encarregou, estava decidido em vir à público, a dizer quem era o verdadeiro autor daquela matéria brilhante, que faria cair tantos cânceres da nossa vida pública, ele não achava correto receber os louros por algo que não havia feito. Foi a primeira vez que vi Furtado decidido, fiquei mais do que satisfeito, porque agora, bastaria apenas tomar a glória de Almeida, que era outro néscio.


Pela segunda vez em todos aqueles anos, Furtado não aparecera no trabalho à hora marcada. Temi por isso, pois precisava de mais tempo pra arquitetar tudo e roubar a glória aos dois inaptos. Sentei em minha mesa, saboreei meu cigarro com café e peguei o jornal concorrente, o qual representava a minha visão política.


Levei um choque, a notícia de capa era: “Morre um Mártir da liberdade!”. Alguém havia dado seis tiros à queima roupa no “jovem brilhante repórter” que havia feito a matéria que desbancaria grande parte da podridão da nossa vida pública. O poeta havia morrido, sem nunca ter sequer uma glória de verdade, nunca permitiram, o visionário morreu, sem nunca ter alçado vôo, o romântico morreu, sem nunca ter recebido um verdadeiro amor, desses que nos fazem sorrir à toa quando andamos pela rua. Haviam furtado a vida do Furtado...







...

quarta-feira, novembro 29, 2006

Roda da Fortuna...








“Fortuna implacável, como podes destruir todas as virtudes e fazer todos chorar?”












Sentia-se ausente. Nada inédito. O herculíneo trabalho da existência parecia penoso demais, desnecessário sobretudo. Observava de maneira vaga as cenas que desenrolavam-se à sua frente e percebia que o lugar não mais fazia diferença. Os sentimentos eram os mesmos. O amplo espectro de espíritos nos quais os amigos haviam se transformado, todo o montante de coisas vagas e vazias era o mesmo em todos os lugares. Em diversas ocasiões, via os locais onde estava e sentia-se dentro de uma televisão. Os sentidos diziam estar ali, mas sua mente falava o contrário.


Sentia-se preso. Não parecia haver como escapar daquela espécie de receptáculo em que seu corpo havia se transformado. Na verdade, uma maneira sombria existia. Ele a conhecia. Não apenas sombria, mas, interessante e sobretudo prática. Como desde algum tempo não enxergava utilidade alguma na existência, deveria abandoná-la. Além de não ter mais problemas, escaparia daquela prisão.


Muito tempo se passara desde que percebera estar ausente do mundo, de todos eles. Não tinha mais a mesma fascinação pelos prazeres materiais. Quem sabe por já possuir todos os brinquedos que o luxo – e as dívidas – permitiam. Prazeres puramente carnais ainda agradavam, porém, estes por serem mais uma necessidade do que uma escolha, sempre que possível se esvaía deles. O prazer da conquista era tão efêmero e machucava tantas pessoas que o abandonara. Amizades, assim como os livros, o distraíam. Todavia, não há distração que dure pra sempre. Lembrava de outras épocas, tempos em que sentia-se melhor. Ao menos, as ilusões ainda não tinham desaparecido, conseguia se ludibriar com as efemeridades da vida. O fardo da existência parecia feito de plumas, estava no cume da roda da fortuna, mas ela, dona de todos os destinos o havia atirado ao chão. Agora, parecia imóvel. Observava no alto, outro em seu lugar.


Sentia-se só. Jazia numa espécie de inferno, cheio de trapos da existência passada. Farrapos de sentimentos outrora vividos.Olhava mais uma vez para cima. Lá estava a sombra em seu lugar. No cerne, no coração da antiga existência. Ppara outro o mundo deveria ser como um prado coberto de cores e flores. Outro que vivia na ilusão. Desde o início conhecia as regras do jogo, sabia ser assim a roda da fortuna. Apenas esperava que ela se movesse novamente algum dia e o levasse novamente para o alto, o mundo das ilusões... O gelo derreteria, as cores do mundo novamente apareceriam e fariam vibrar desejos e alegrias. Infelizmente, parecia que a existência proporcionava os maiores prazeres para que se sofram as dores na sua plenitude, em toda a potencialidade.


Tolo como era, seu maior prazer parecia ser o amor passado. Ou oque achava ser amor. Porém, como não poderia deixar de ser, ela partira, rumou para outras atuações no teatro humano e lá no alto ficou. Quem agora amaria? Irrelevante pergunta. Relevante mesmo era encontrar um mercador de almas, assim, poderia comprar um bilhete para subir novamente e encontrar suas ilusões. Talvez, a solução fosse derrubar todas elas, uma a uma, dos castelos de virtudes. Trazê-las para seu mundo e lodaçal.


Sentia-se inflamado por uma raiva violenta, primeiro sentimento real desde dias e dias submerso em si mesmo e em vícios. Infame sorte aquela, acaso não poderia viver na felicidade? Um lampejo de brilho no seu rosto denotava uma solução. Como não poderia viver a felicidade, ao invés de sumir da existência, mataria a alma para o gozo de seu próprio corpo. Viveria a prisão. “Fortuna implacável, como podes destruir todas as virtudes e fazer todos chorar?”









...

quinta-feira, setembro 21, 2006

O Errante e a Distância...


"Distância

do Lat. distantia

s. f.,

espaço entre duas pessoas ou coisas"

Sentado, à espera de algum acontecimento, sentia-se como Cristo na cruz. A desesperança era maior que a do messias bradando ter sido abandonado. Sentia-se um espírito, olhando os vivos, diferentes dele. Sentia ódio de si mesmo por estar naquela situação, sabia, afinal, ser sua culpa. Culpava o acaso e o maldito destino de ter nascido. Quisera que seu pai tivesse gozado na boca de sua mãe, assim iria ser apenas uma semente diluída num estômago qualquer.

Pessoas mais velhas ao seu redor. Sentia certa inveja delas. Haviam percorrido a estrada que ele mesmo atravessaria, pareciam felizes. Sorrisos enrugados, gargalhadas sonoras. Afora o fato de parecer que faziam isso apenas para caçoar de sua expressão insone, conversaria com eles. Chovia. Cada pingo martelando na sua cabeça. Cada pingo lembrando de dias passados. Pensava que os velhos pareciam felizes por não possuir mais paixões, as vontades, déspotas de nossa insaciedade, que tanto nos faz frustrar. Trazendo o sentimento de impossibilidade da felicidade. Na velhice isso parece padecer, adormecer com o resto das forças.

Quem sabe tratamento de choque não surtisse esse efeito. Esfriava. Sempre que isso ocorria, relembrava fatos do passado, pessoas. Fazia dois anos que não via seu amor, ela ficara na cidade antiga, com os hábitos, ocasiões e tudo mais que nos prende às vezes por décadas num mesmo lugar. Dois anos e a chuva permanecia inalterada neste lugar, parecia que sempre chovia da mesma forma, os mesmos sons, os mesmos cheiros. Poças de água cinzenta e marrom nos mesmos lugares. Tudo igual. Ouvia a mesma música, que eles haviam combinado escutar enquanto dirigiam sem rumo, por aquela mesma chuva.

Aquela música que inspirava ódio nele, vontade de dançar nela. Que fazia ele se sentir revigorado, que acabava com ela. Tão iguais. Os únicos no mundo a se entender? Porque havia sido burro a ponto de optar pela segurança? Um casamento estável vale mais que uma grande paixão?

Tentava aceitar uma ordem de idéias melhores. Aquele assunto já havia sido discutido consigo mesmo infinitas vezes. Não poderia fazer mais do que se lamentar. Ficou muito tempo nessa espécie de exercício de auto-sobrevivência. Consolava-se de um pensamento com outro, este desenganado aquele. Aquele desenganando o outro. Brincava com a sua própria mente. Havia dias que procurava um sem resposta. Mas nunca encontrava.

As pessoas ao seu redor pareciam felizes. Não sabia como, havia chegado até uma lanchonete, perto de onde estava. Não percebia mais as causalidades da vida. Não percebia as simples ações que cometia. Era um errante guiado de forma autônoma por si mesmo. Não se permitia julgar as pessoas pelos risos em uma mesa de bar, mas parecia estar entre gente alegre, isso o irritava. Essas ocasiões sempre avivam fatos passados alegres, a afeição dos outros duplica a própria, para seu consolo, julgava serem tolos tristes no lugar.

Não me parece que explique bem a situação deste ser àquele lugar, àquela situação, porém, ainda é propício para o fogo que vai ser o destino final destas linhas, e não só delas. Lembrava-se ainda dos velhos sorridentes de pouco tempo atrás, a velhice, apesar da falta de paixões, ou talvez por isso mesmo, parecia ser um fardo, ofício cansativo.

Não há cabimento no descrever o resto dos pensamentos contraditórios daquele ser, leve o diabo tais pensamentos. Voltavam os velhos, como, apesar das misérias que haviam assistido conseguiam ao menos fingir alegria? Olhava para seus pálidos dedos. Gostava do modo como as mangas cobriam metade de sua mão. Lembrava da sua última alegria. A última vez que se viram. Ela não havia ainda falado aquelas três palavras tão simples, mas que deixam qualquer ser ébrio e com falta de ar. Nunca chegou a dizer, porém, todas as que empregava vinham a dar nelas, todos os olhares na mesma direção.

Sobrevinham as lágrimas. Olhava para si no espelho, sempre tivera tédio dos fracos. Contraditório que era, não podia deixar de ser diferente.

...

Obrigado à belíssima senhorita Mayara Santiago pela foto, que eu coloquei aqui sem autorização.

;*

sexta-feira, setembro 01, 2006

Desespero... Parte I



“Moonless night in the small town...”

Um bando de nada. Casas agrupadas em poucas ruas, a principal asfaltada. Numa delas, simplória, uma gestante. Pra nascer, tiveram de levá-la rumo à cidade vizinha. Foi no rumo que nascera o poeta deste conto, na imensidão desoladora dos campos. Dizem que o choro foi ouvido a muita distância.

Havia tempos queria abandonar aquela cidadela do interior. Não produzira nada útil naqueles anos todos. Estava longe de ser um peão, um simplório qualquer. Afora a ingenuidade que somente poderia perder anos depois, podia do alto de seus vinte invernos analisar com certa austeridade a existência.

Calado, soturno, nunca tivera muitos amigos. Quem sabe devido a isso, seus maiores companheiros foram os livros que por sorte herdara de seu avô. A mãe, uma professora primária havia sido muito mais um estorvo do que incentivo, olhava para ela, sempre lendo, nunca quis se parecer aquela mulher solitária e triste.

Pelos quatorze anos começara a escrever. Trancava-se em seu quarto, se esquecia do mundo. Nunca mostrava seus versos iniciantes a ninguém, estavam eternamente destinados alguma gaveta cheirando a mofo. Foi a vontade de tirá-los de lá que fez surgir a resolução de partir para a capital. Isto, e o motivo que tantas mudanças já proporcionaram a rapazes frágeis como aquele. Um coração partido.

Garota fútil, descompromissada com nada que não fosse o intento de ser mais bonita que as suas companheiras, da única escola presente na cidade. Olhava as revistas de moda e queria ser como as modelos. Tinha os mais grandiosos sonhos. Casar, ter filhos e ser feliz. Quando, numa festa foi falar com o rapaz de nossa história, e esse, devido à curiosidade de leituras diversas, sabia do que se tratavam as grifes que ela vomitava, enamorou-se no mesmo instante.

Quando ela começou a se aventurar com o filho do prefeito, depois que este ganhou uma camionete nova, nosso herói viu seus sonhos partidos em pedaços. Resolvera o que a tanto tempo estava encubado em sua mente; iria para a capital, estudaria, ganharia dinheiro e publicaria livros. Seria respeitado e se vingaria, agraciando o verdadeiro amor de alguma mulher inteligente.

Faltava somente um detalhe, não tinha condições para isso, muito menos o consentimento de sua solitária mãe. Parecia uma questão indissolúvel. Foi quando começou a perceber que o mundo real era bem pior do que imaginava. O único bem que possuía eram justamente os livros herdados do avô, que este juntou por toda a vida e que lera com tanto carinho. Desfez-se dos mesmos e a quantia fora desanimadora. Poderia ficar poucos meses na capital, teria de economizar o quanto fosse possível, além de arranjar um emprego qualquer.

Por sorte, um conhecido estava lá fazia algum tempo, mandou-lhe uma carta, solicitando informação sobre qualquer lugar onde pudesse morar. O tal amigo cursava medicina, indicou a honesta casa de uma enfermeira, onde ele poderia se instalar por um preço bem convidativo. O menor possível.

Quinze dias depois, malas prontas, a mãe aos prantos, nem sequer foi até a rodoviária. Ficou em casa pensando que tivera o filho por tanto tempo, ali, no quarto e nunca tinha ido saber quem era aquele estranho que tanto lia e escrevia por detrás daquela porta, analisava cadacentímetro vazio e só não morreu naquele instante porque tinha esperança de ver o filho de volta algum dia, tornou-se crédula depois disso. Todos os dias rezava pela saúde e bem estar do filho.

...

quinta-feira, agosto 31, 2006

Desespero... Parte II


There is a house in...”












Chegando à cidade, reparava que a pobreza poderia ser maior do que naquela cidadezinha. O ônibus passava por mendigos e mais mendigos, quem sabe, como ele, fossem todos fugitivos de alguma terra árida. No caso dele, fugitivo de espíritos áridos. Ali poderia encontrar as grandes mentes, seus únicos amigos com os quais tinha conversas intermináveis em seus pensamentos.


Na estação do ônibus, seu conhecido, anos envelhecido, muito mais do que os que permanecera na capital. Seu primeiro pensamento no novo lar foi de que aquele lugar envelhecia as pessoas mais depressa.


A visão de sua nova morada foi desoladora. Não esperava nenhuma residência luxuosa, fora precavido disso. Porém, uma espécie de asilo ia longe de sua imaginação. Um sobrado antigo, de um verde indistinguível, velhos arbustos na frente. Pensava que deveria ter enveredado para os livros de terror, assim teria forte inspiração naquele lugar isolado dos grandes prédios que vira no centro.


À porta, atendeu um pequeno garotinho, branco como a roupa da mulher que vinha atrás, o menino saiu correndo e se perdeu atrás de um corredor. À primeira vista, parecia-se com sua mãe, mais magra. Deveria ter sido imensamente bonita uns dez anos atrás. Entrando, ficara mais animado devido ao asseio e silêncio do local. Vira vultos, mas não se atreveu a perguntar quem eram aquelas pessoas. Sabia que haviam mais moradores na casa, cria não ser de sua conta as perguntas.


Foi apresentado ao banheiro. Enorme, de um verde escuro, uma grande banheira que não devia ser usada a pelo menos uns trinta anos. Havia algumas barras na parede, imaginava serem destinadas a algum deficiente no local. Depois, a cozinha, poderia cozinhar se quisesse, mas teria de limpar cada coisa que sujasse. Subiram umas escadas rangentes. Um corredor estreito e comprido.


Na frente de seu quarto, uma porta aberta, uma moça trocava de roupa, deveria ter uns 16 anos. Alta, esguia, cabelos castanhos, num quarto que diferia do resto da casa pelo novo dos móveis e decoração. A moça pareceu fingir um susto, gritou com a “tia”. Correu até a porta com uma minúscula toalha emergencial e quando a mãe se virou, deu um leve sorrisinho. Bateu a porta com força.


A senhora pediu desculpas pelos modos da sobrinha, enquanto abria a porta do que viria a ser a próxima morada do escritor. Era grotesco, úmido, pequeno, escuro, frio. Uma cama improvisada, um guarda roupas que barrava a entrada da porta, um pequeno rádio de pilhas – que parecia não funcionar – em cima de uma pequena escrivaninha e prateleiras nas paredes. Estas que não mais poderiam ser preenchidas por seus livros.

O que mais de marcante se mostrava era o colchão com uma enorme macha escura no meio. Parecia que alguém havia sido eviscerado naquele colchão, há bem pouco tempo.
Fechou-se a porta em suas costas, largou as mochilas no chão derramou as primeiras de muitas lágrimas que viriam conhecer a gênese a partir daqueles olhos. Enojou-se de tudo naquela cidade. Aquela casa, aquele quarto.

Não tinha mais a companhia de seus “amigos”. Trocou todos eles por aquela vida de imundície. Se pudesse, trocaria o quarto pelo banheiro. Menino mimado que era, não pensou na hipótese dele mesmo limpar, viria a descobrir dias depois que seria o responsável por si e seus cuidados.


A única coisa que o consolara e que o fez dormir naquele dia foi o ligeiro sorriso da moça. Numa fração de segundos ela esboçara a última reação que esperava ver. Lembrava em muito a menina fútil que fora a causadora dele estar naquele maldito lugar, por isto talvez, a odiava. Tinha apenas uma grande vontade de possuí-la, nem que fosse à força. Sua mente católica, com o correr destes pensamentos, sentia-se envergonhada e suja.


Alguns dias decorreram até conhecer os outros moradores da casa, suas respectivas funções – ou falta delas – e a insanidade daquela casa. Parecia um local amaldiçoado. Nunca conhecera tanta tragédia junto.


Moravam lá dois casais. O primeiro; a dona da casa e seu marido. Esta era a enfermeira que o recepcionou, Mandava em todos, sustentava a casa sozinha. Trabalhava o dia inteiro em um hospital de queimados. Quando chegava em casa, limpava alguma coisa, pegava uma pequena taça de chá e se recolhia de chinelos para a frente da TV. Assistia alguma futilidade e ia dormir.

Todos os dias, a mesma rotina. Alguém poderia sem problemas ajustar as horas de seu relógio pelas passadas ouvidas no andar de baixo, onde ficava seu quarto. Deveria ter sido bela, mas com o passar dos dias, via que sua presença era menos marcante nas ruas. Belas pernas, fortes, cabelos pretos bem tratados. Achava mais, poderia ter sido modelo se quisesse, ou quem sabe, tivesse tido mais sorte na vida. A voz era de uma suave rouquidão.