quarta-feira, novembro 29, 2006

Roda da Fortuna...








“Fortuna implacável, como podes destruir todas as virtudes e fazer todos chorar?”












Sentia-se ausente. Nada inédito. O herculíneo trabalho da existência parecia penoso demais, desnecessário sobretudo. Observava de maneira vaga as cenas que desenrolavam-se à sua frente e percebia que o lugar não mais fazia diferença. Os sentimentos eram os mesmos. O amplo espectro de espíritos nos quais os amigos haviam se transformado, todo o montante de coisas vagas e vazias era o mesmo em todos os lugares. Em diversas ocasiões, via os locais onde estava e sentia-se dentro de uma televisão. Os sentidos diziam estar ali, mas sua mente falava o contrário.


Sentia-se preso. Não parecia haver como escapar daquela espécie de receptáculo em que seu corpo havia se transformado. Na verdade, uma maneira sombria existia. Ele a conhecia. Não apenas sombria, mas, interessante e sobretudo prática. Como desde algum tempo não enxergava utilidade alguma na existência, deveria abandoná-la. Além de não ter mais problemas, escaparia daquela prisão.


Muito tempo se passara desde que percebera estar ausente do mundo, de todos eles. Não tinha mais a mesma fascinação pelos prazeres materiais. Quem sabe por já possuir todos os brinquedos que o luxo – e as dívidas – permitiam. Prazeres puramente carnais ainda agradavam, porém, estes por serem mais uma necessidade do que uma escolha, sempre que possível se esvaía deles. O prazer da conquista era tão efêmero e machucava tantas pessoas que o abandonara. Amizades, assim como os livros, o distraíam. Todavia, não há distração que dure pra sempre. Lembrava de outras épocas, tempos em que sentia-se melhor. Ao menos, as ilusões ainda não tinham desaparecido, conseguia se ludibriar com as efemeridades da vida. O fardo da existência parecia feito de plumas, estava no cume da roda da fortuna, mas ela, dona de todos os destinos o havia atirado ao chão. Agora, parecia imóvel. Observava no alto, outro em seu lugar.


Sentia-se só. Jazia numa espécie de inferno, cheio de trapos da existência passada. Farrapos de sentimentos outrora vividos.Olhava mais uma vez para cima. Lá estava a sombra em seu lugar. No cerne, no coração da antiga existência. Ppara outro o mundo deveria ser como um prado coberto de cores e flores. Outro que vivia na ilusão. Desde o início conhecia as regras do jogo, sabia ser assim a roda da fortuna. Apenas esperava que ela se movesse novamente algum dia e o levasse novamente para o alto, o mundo das ilusões... O gelo derreteria, as cores do mundo novamente apareceriam e fariam vibrar desejos e alegrias. Infelizmente, parecia que a existência proporcionava os maiores prazeres para que se sofram as dores na sua plenitude, em toda a potencialidade.


Tolo como era, seu maior prazer parecia ser o amor passado. Ou oque achava ser amor. Porém, como não poderia deixar de ser, ela partira, rumou para outras atuações no teatro humano e lá no alto ficou. Quem agora amaria? Irrelevante pergunta. Relevante mesmo era encontrar um mercador de almas, assim, poderia comprar um bilhete para subir novamente e encontrar suas ilusões. Talvez, a solução fosse derrubar todas elas, uma a uma, dos castelos de virtudes. Trazê-las para seu mundo e lodaçal.


Sentia-se inflamado por uma raiva violenta, primeiro sentimento real desde dias e dias submerso em si mesmo e em vícios. Infame sorte aquela, acaso não poderia viver na felicidade? Um lampejo de brilho no seu rosto denotava uma solução. Como não poderia viver a felicidade, ao invés de sumir da existência, mataria a alma para o gozo de seu próprio corpo. Viveria a prisão. “Fortuna implacável, como podes destruir todas as virtudes e fazer todos chorar?”









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quinta-feira, setembro 21, 2006

O Errante e a Distância...


"Distância

do Lat. distantia

s. f.,

espaço entre duas pessoas ou coisas"

Sentado, à espera de algum acontecimento, sentia-se como Cristo na cruz. A desesperança era maior que a do messias bradando ter sido abandonado. Sentia-se um espírito, olhando os vivos, diferentes dele. Sentia ódio de si mesmo por estar naquela situação, sabia, afinal, ser sua culpa. Culpava o acaso e o maldito destino de ter nascido. Quisera que seu pai tivesse gozado na boca de sua mãe, assim iria ser apenas uma semente diluída num estômago qualquer.

Pessoas mais velhas ao seu redor. Sentia certa inveja delas. Haviam percorrido a estrada que ele mesmo atravessaria, pareciam felizes. Sorrisos enrugados, gargalhadas sonoras. Afora o fato de parecer que faziam isso apenas para caçoar de sua expressão insone, conversaria com eles. Chovia. Cada pingo martelando na sua cabeça. Cada pingo lembrando de dias passados. Pensava que os velhos pareciam felizes por não possuir mais paixões, as vontades, déspotas de nossa insaciedade, que tanto nos faz frustrar. Trazendo o sentimento de impossibilidade da felicidade. Na velhice isso parece padecer, adormecer com o resto das forças.

Quem sabe tratamento de choque não surtisse esse efeito. Esfriava. Sempre que isso ocorria, relembrava fatos do passado, pessoas. Fazia dois anos que não via seu amor, ela ficara na cidade antiga, com os hábitos, ocasiões e tudo mais que nos prende às vezes por décadas num mesmo lugar. Dois anos e a chuva permanecia inalterada neste lugar, parecia que sempre chovia da mesma forma, os mesmos sons, os mesmos cheiros. Poças de água cinzenta e marrom nos mesmos lugares. Tudo igual. Ouvia a mesma música, que eles haviam combinado escutar enquanto dirigiam sem rumo, por aquela mesma chuva.

Aquela música que inspirava ódio nele, vontade de dançar nela. Que fazia ele se sentir revigorado, que acabava com ela. Tão iguais. Os únicos no mundo a se entender? Porque havia sido burro a ponto de optar pela segurança? Um casamento estável vale mais que uma grande paixão?

Tentava aceitar uma ordem de idéias melhores. Aquele assunto já havia sido discutido consigo mesmo infinitas vezes. Não poderia fazer mais do que se lamentar. Ficou muito tempo nessa espécie de exercício de auto-sobrevivência. Consolava-se de um pensamento com outro, este desenganado aquele. Aquele desenganando o outro. Brincava com a sua própria mente. Havia dias que procurava um sem resposta. Mas nunca encontrava.

As pessoas ao seu redor pareciam felizes. Não sabia como, havia chegado até uma lanchonete, perto de onde estava. Não percebia mais as causalidades da vida. Não percebia as simples ações que cometia. Era um errante guiado de forma autônoma por si mesmo. Não se permitia julgar as pessoas pelos risos em uma mesa de bar, mas parecia estar entre gente alegre, isso o irritava. Essas ocasiões sempre avivam fatos passados alegres, a afeição dos outros duplica a própria, para seu consolo, julgava serem tolos tristes no lugar.

Não me parece que explique bem a situação deste ser àquele lugar, àquela situação, porém, ainda é propício para o fogo que vai ser o destino final destas linhas, e não só delas. Lembrava-se ainda dos velhos sorridentes de pouco tempo atrás, a velhice, apesar da falta de paixões, ou talvez por isso mesmo, parecia ser um fardo, ofício cansativo.

Não há cabimento no descrever o resto dos pensamentos contraditórios daquele ser, leve o diabo tais pensamentos. Voltavam os velhos, como, apesar das misérias que haviam assistido conseguiam ao menos fingir alegria? Olhava para seus pálidos dedos. Gostava do modo como as mangas cobriam metade de sua mão. Lembrava da sua última alegria. A última vez que se viram. Ela não havia ainda falado aquelas três palavras tão simples, mas que deixam qualquer ser ébrio e com falta de ar. Nunca chegou a dizer, porém, todas as que empregava vinham a dar nelas, todos os olhares na mesma direção.

Sobrevinham as lágrimas. Olhava para si no espelho, sempre tivera tédio dos fracos. Contraditório que era, não podia deixar de ser diferente.

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Obrigado à belíssima senhorita Mayara Santiago pela foto, que eu coloquei aqui sem autorização.

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sexta-feira, setembro 01, 2006

Desespero... Parte I



“Moonless night in the small town...”

Um bando de nada. Casas agrupadas em poucas ruas, a principal asfaltada. Numa delas, simplória, uma gestante. Pra nascer, tiveram de levá-la rumo à cidade vizinha. Foi no rumo que nascera o poeta deste conto, na imensidão desoladora dos campos. Dizem que o choro foi ouvido a muita distância.

Havia tempos queria abandonar aquela cidadela do interior. Não produzira nada útil naqueles anos todos. Estava longe de ser um peão, um simplório qualquer. Afora a ingenuidade que somente poderia perder anos depois, podia do alto de seus vinte invernos analisar com certa austeridade a existência.

Calado, soturno, nunca tivera muitos amigos. Quem sabe devido a isso, seus maiores companheiros foram os livros que por sorte herdara de seu avô. A mãe, uma professora primária havia sido muito mais um estorvo do que incentivo, olhava para ela, sempre lendo, nunca quis se parecer aquela mulher solitária e triste.

Pelos quatorze anos começara a escrever. Trancava-se em seu quarto, se esquecia do mundo. Nunca mostrava seus versos iniciantes a ninguém, estavam eternamente destinados alguma gaveta cheirando a mofo. Foi a vontade de tirá-los de lá que fez surgir a resolução de partir para a capital. Isto, e o motivo que tantas mudanças já proporcionaram a rapazes frágeis como aquele. Um coração partido.

Garota fútil, descompromissada com nada que não fosse o intento de ser mais bonita que as suas companheiras, da única escola presente na cidade. Olhava as revistas de moda e queria ser como as modelos. Tinha os mais grandiosos sonhos. Casar, ter filhos e ser feliz. Quando, numa festa foi falar com o rapaz de nossa história, e esse, devido à curiosidade de leituras diversas, sabia do que se tratavam as grifes que ela vomitava, enamorou-se no mesmo instante.

Quando ela começou a se aventurar com o filho do prefeito, depois que este ganhou uma camionete nova, nosso herói viu seus sonhos partidos em pedaços. Resolvera o que a tanto tempo estava encubado em sua mente; iria para a capital, estudaria, ganharia dinheiro e publicaria livros. Seria respeitado e se vingaria, agraciando o verdadeiro amor de alguma mulher inteligente.

Faltava somente um detalhe, não tinha condições para isso, muito menos o consentimento de sua solitária mãe. Parecia uma questão indissolúvel. Foi quando começou a perceber que o mundo real era bem pior do que imaginava. O único bem que possuía eram justamente os livros herdados do avô, que este juntou por toda a vida e que lera com tanto carinho. Desfez-se dos mesmos e a quantia fora desanimadora. Poderia ficar poucos meses na capital, teria de economizar o quanto fosse possível, além de arranjar um emprego qualquer.

Por sorte, um conhecido estava lá fazia algum tempo, mandou-lhe uma carta, solicitando informação sobre qualquer lugar onde pudesse morar. O tal amigo cursava medicina, indicou a honesta casa de uma enfermeira, onde ele poderia se instalar por um preço bem convidativo. O menor possível.

Quinze dias depois, malas prontas, a mãe aos prantos, nem sequer foi até a rodoviária. Ficou em casa pensando que tivera o filho por tanto tempo, ali, no quarto e nunca tinha ido saber quem era aquele estranho que tanto lia e escrevia por detrás daquela porta, analisava cadacentímetro vazio e só não morreu naquele instante porque tinha esperança de ver o filho de volta algum dia, tornou-se crédula depois disso. Todos os dias rezava pela saúde e bem estar do filho.

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quinta-feira, agosto 31, 2006

Desespero... Parte II


There is a house in...”












Chegando à cidade, reparava que a pobreza poderia ser maior do que naquela cidadezinha. O ônibus passava por mendigos e mais mendigos, quem sabe, como ele, fossem todos fugitivos de alguma terra árida. No caso dele, fugitivo de espíritos áridos. Ali poderia encontrar as grandes mentes, seus únicos amigos com os quais tinha conversas intermináveis em seus pensamentos.


Na estação do ônibus, seu conhecido, anos envelhecido, muito mais do que os que permanecera na capital. Seu primeiro pensamento no novo lar foi de que aquele lugar envelhecia as pessoas mais depressa.


A visão de sua nova morada foi desoladora. Não esperava nenhuma residência luxuosa, fora precavido disso. Porém, uma espécie de asilo ia longe de sua imaginação. Um sobrado antigo, de um verde indistinguível, velhos arbustos na frente. Pensava que deveria ter enveredado para os livros de terror, assim teria forte inspiração naquele lugar isolado dos grandes prédios que vira no centro.


À porta, atendeu um pequeno garotinho, branco como a roupa da mulher que vinha atrás, o menino saiu correndo e se perdeu atrás de um corredor. À primeira vista, parecia-se com sua mãe, mais magra. Deveria ter sido imensamente bonita uns dez anos atrás. Entrando, ficara mais animado devido ao asseio e silêncio do local. Vira vultos, mas não se atreveu a perguntar quem eram aquelas pessoas. Sabia que haviam mais moradores na casa, cria não ser de sua conta as perguntas.


Foi apresentado ao banheiro. Enorme, de um verde escuro, uma grande banheira que não devia ser usada a pelo menos uns trinta anos. Havia algumas barras na parede, imaginava serem destinadas a algum deficiente no local. Depois, a cozinha, poderia cozinhar se quisesse, mas teria de limpar cada coisa que sujasse. Subiram umas escadas rangentes. Um corredor estreito e comprido.


Na frente de seu quarto, uma porta aberta, uma moça trocava de roupa, deveria ter uns 16 anos. Alta, esguia, cabelos castanhos, num quarto que diferia do resto da casa pelo novo dos móveis e decoração. A moça pareceu fingir um susto, gritou com a “tia”. Correu até a porta com uma minúscula toalha emergencial e quando a mãe se virou, deu um leve sorrisinho. Bateu a porta com força.


A senhora pediu desculpas pelos modos da sobrinha, enquanto abria a porta do que viria a ser a próxima morada do escritor. Era grotesco, úmido, pequeno, escuro, frio. Uma cama improvisada, um guarda roupas que barrava a entrada da porta, um pequeno rádio de pilhas – que parecia não funcionar – em cima de uma pequena escrivaninha e prateleiras nas paredes. Estas que não mais poderiam ser preenchidas por seus livros.

O que mais de marcante se mostrava era o colchão com uma enorme macha escura no meio. Parecia que alguém havia sido eviscerado naquele colchão, há bem pouco tempo.
Fechou-se a porta em suas costas, largou as mochilas no chão derramou as primeiras de muitas lágrimas que viriam conhecer a gênese a partir daqueles olhos. Enojou-se de tudo naquela cidade. Aquela casa, aquele quarto.

Não tinha mais a companhia de seus “amigos”. Trocou todos eles por aquela vida de imundície. Se pudesse, trocaria o quarto pelo banheiro. Menino mimado que era, não pensou na hipótese dele mesmo limpar, viria a descobrir dias depois que seria o responsável por si e seus cuidados.


A única coisa que o consolara e que o fez dormir naquele dia foi o ligeiro sorriso da moça. Numa fração de segundos ela esboçara a última reação que esperava ver. Lembrava em muito a menina fútil que fora a causadora dele estar naquele maldito lugar, por isto talvez, a odiava. Tinha apenas uma grande vontade de possuí-la, nem que fosse à força. Sua mente católica, com o correr destes pensamentos, sentia-se envergonhada e suja.


Alguns dias decorreram até conhecer os outros moradores da casa, suas respectivas funções – ou falta delas – e a insanidade daquela casa. Parecia um local amaldiçoado. Nunca conhecera tanta tragédia junto.


Moravam lá dois casais. O primeiro; a dona da casa e seu marido. Esta era a enfermeira que o recepcionou, Mandava em todos, sustentava a casa sozinha. Trabalhava o dia inteiro em um hospital de queimados. Quando chegava em casa, limpava alguma coisa, pegava uma pequena taça de chá e se recolhia de chinelos para a frente da TV. Assistia alguma futilidade e ia dormir.

Todos os dias, a mesma rotina. Alguém poderia sem problemas ajustar as horas de seu relógio pelas passadas ouvidas no andar de baixo, onde ficava seu quarto. Deveria ter sido bela, mas com o passar dos dias, via que sua presença era menos marcante nas ruas. Belas pernas, fortes, cabelos pretos bem tratados. Achava mais, poderia ter sido modelo se quisesse, ou quem sabe, tivesse tido mais sorte na vida. A voz era de uma suave rouquidão.










quarta-feira, agosto 30, 2006

Desespero... Parte III


A man's character is his fate"











O marido desta, nunca lhe tinha escutado a voz, passava o dia inteiro no quarto, saía somente nas horas das refeições e nunca dirigia a palavra a ninguém. Residia numa cadeira de rodas. Depois de tempos, o escritor ficou sabendo que houvera um acidente. O marido estava recém casado, com um bom emprego, era esportista. Dos bons, chegara a ler sobre o caso dele nos almanaques de esporte. Porém, em uma viagem com a delegação do país houve um acidente onde morreram vários atletas. Ele havia falecido apenas espiritualmente. Mesmo assim a esposa nunca quis largá-lo.

O outro casal era – não fosse trágico - cômico. Tratava-se do irmão mais velho da dona da casa. A primeira namorada que teve era sua esposa. Morava perto da casa dele. Houve problemas financeiros. Teria de ir embora. Para não perder a namorada, chamou-a para morar na casa da mãe, esta mesma casa agora alugada aos poucos. Acabaram se casando, tiveram filhos, sem nem perceber ou planejar qualquer coisa. Desperdiçara a vida como quem joga jornal velho fora.

Ele trabalhava ali, no porão da casa, confeccionava de forma artesanal acessórios para sex-shop. Havia de tudo, de certa feita o poeta fora convidado a apreciar as obras de arte e tortura do artesão. Não havia como deixar de rir e ficar chocado, como um senhor de meia idade, resignado com a vida, pai de dois filhos, conseguia imaginar e construir aqueles artefatos bizarros dia após dia? Depois o irmão foi se revelando um pouco aquém da imagem de doçura que sua aparência revelava. Era jogador compulsivo, não contribuía em nada na casa. Nem para os filhos, nunca comprara um presente de natal.

A mulher do irmão era um capítulo a parte. Obesa, imensa, grande, gorda. Nunca conversava com ninguém, nem mesmo com o marido. O silêncio era sepulcral. Nunca havia trabalhado. Creio que não soubesse nem ler. Não fossem as ocasionais discussões com os filhos pensar-se-ia que era muda.

Os filhos. Além da ninfeta que me sorriu aquele dia – e nunca mais, havia um pequeno garoto. O menino que atendeu a porta aquele dia. Deveria ter uns dez anos ou coisa assim. Era muito tímido, mas com o tempo tornara-se meu amigo. Eu o estava ensinando a ler. Tinha modos tão delicados que poderia se passar por uma menininha da mesma idade. Fora meu primeiro amigo na selva nova.

A irmã consumia o poeta. Não havia escrito mais uma linha sequer. Sempre que pensava em alguma história, assunto ou o que fosse voltava aquele sorriso em sua memória. As pessoas da casa começavam a se perguntar qual fora o intento dele vir do interior. Haja vista que nunca fazia nada. Ficava sempre no quarto e descia apenas para as lições do menino e para comer. Mas o bloqueio era invencível... Aquelas pernas, aqueles seios, lhe traziam à memória todo tipo de perversão. À noite não conseguia dormir, na esperança que ela abrisse a porta do quarto e realizasse seus sonhos adolescentes.

Sua angústia não durou muito tempo. Certo dia, depois do almoço, ele subiu para, como sempre, fazer nada e se martirizar no quarto. Os tios, por milagre do destino, tiveram de sair. Haveria um show do padre cantor da cidade. Não poderiam perder. Era o único passeio mensal. Levaram o filho.

No andar de baixo. Inválidos. Quando entrou no quarto ela estava lá. Olhando suas coisas. Pareceu assustada quando o viu. Usava um pequeno pijama e uma blusinha, adequada ao calor infernal que fazia. Ressaltava as suas belas formas. Ele não disse palavra. Apenas um oi. Deu mais um sorriso e o beijou. Não se preocuparam nem em fechar a porta. Apenas não poderiam fazer barulho. Não fizeram. Depois do ato conversaram como se fossem velhos amigos, ela, deitada no peito dele. Sentiam-se felizes. Quem sabe, foi a última alegria de cada um. Não se fazem momentos como este na vida mais de duas vezes.

Contaram-se todos os segredos. Viraram cúmplices. Era uma garota de programa. Saía de casa quase todos os dias à noite. Descia habilmente por uma calha. Usava drogas. Depois de uns dias, começou a acompanhá-la, freqüentava bares, pocilgas e todo antro de perversões. Começava a entender a preocupação de todos ao saber que iria para a capital. Não tinha dinheiro. Não tinha emprego. Não conseguira produzir nada naquele tempo. Mas, a lembrança das pessoas que duvidaram de suas perspectivas, a lembrança de ver seu primeiro amor naquele carro com aquele imbecil. Todas estas coisas o faziam sentir essa espécie de ódio e desejo de vingança que impulsionam tantas e tantas vidas. Ressentimento.

Havia ainda mais um morador na casa. Uma moradora. Era a mãe da dona da casa. Quando conheceu esta, não se surpreendeu com a história trágica. Poderia ser de outra forma naquele lugar provido de tantos anátemas? Uma senhora idosa. Raros cabelos brancos na cabeça. Aspecto mórbido, faltava um tanto da penugem calva. Revelando assim uma cicatriz imensa. Pequenos olhos, em geral fechados, cerrados numa expressão de conformidade com a dor. Inteira parecia exalar angústia. Não devia fazer a menor idéia do porque de sua existência. Não que nós ou as pessoas daquela casa soubéssemos, entretanto, a senhora nem se dava conta da mesma.

A cicatriz era oriunda de uma operação para a retirada de um tumor no cérebro. Durante a vida toda agüentara constantes enxaquecas sem nunca comentar ou reclamar a ninguém. Podia-se perceber que a força da dona da casa viera daquela mulher, infelizmente a sorte não sorriu pra ela. Agora não passava de um vegetal inerte que inconscientemente todos queriam ver morta.

O destino do poeta selou-se quando a menina tivera de sair mais cedo. Tinha um cliente e ele resolveu assistir às futilidades junto com a dona da casa. Começaram a conversar, foi neste dia que descobriu os detalhes relatados acima. Segurou-se a sua alma ingênua para não verter lágrimas ante cada história, para não rir da profissão do irmão dela. Obviamente, não sabia nada sobre a profissão da filha nem suas atividades.











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terça-feira, agosto 29, 2006

Desespero... Parte IV


Manual Chair”



















A conversa durou muito menos do que pretendia. A mãe fora dormir, no horário, como sempre. Naquela noite pensou como aquela mulher era forte, decidida, completamente diferente de todas as que conhecera anteriormente. A força que emanava era algo quase palpável. Ao longo dos dias, voltara naquela mesma sala, descobriu mais, ela ia para o quarto e lia até tarde. Tinha uma vasta biblioteca. Dizia que podia se dar ao luxo, afinal, ela quem sustentava a casa toda.

Ela lhe emprestara seus livros, agora podia novamente ter amigos, novos, muito mais refinados que os seus. Voltara a escrever. Apenas quem não gostou muito disso foi a sobrinha dela. Afinal, escrevendo, o poeta não poderia mais acompanhá-la nas festas. Até a freqüência de seus encontros sexuais diminuíra muito. Na verdade ele se desinteressava dela cada vez mais. Estava interessando-se pela mãe. A conversa deles era divertida, com certeza fazia inveja ao silêncio sepulcral da casa.

As lições do menino continuavam. O garoto cada vez mais abandonava a timidez, sempre abraçava o poeta e agradecia as lições. Certa vez, com lágrimas aos olhos. Conhecera uma pessoa de espírito, as quais sonhara que existiam na capital, mas que ainda não tivera acesso. Parecia que a atmosfera de seu mundo melhorara. Seu olhar de poeta assistia um belo por do sol, pensando que devia ser assim por causa dos saberes acumulados naquela cidade. Nem sequer imaginava que haviam acontecido no passado, cenas até mais bonitas que esta, e que, os seres primitivos de onde viera não acumulavam muitos saberes.

Olhar de apaixonado. A cumplicidade entre ele e a dona da casa era latente. Os sorrisos denotavam um amor que nunca conheceram. Ele não tinha coragem de dizer nada. Sempre que entravam em assuntos desta feita sentimental, ela sabiamente mudava o rumo das conversas. No íntimo, ela queria e ia fazer algo quanto a isso. Entretanto, para a infelicidade dela. Certo dia, ao voltar mais cedo do trabalho. Decidida a entrar sorrateiramente no quarto do seu poeta e beijá-lo até se cansar. Ao aproximar-se da porta, escutou os dois ninfetos. Petrificou-se. Chegou a sofrer um pouco, mas se resignara aos sofrimentos havia muito. Já havia sofrido demais para que uma simples troca pudesse deixá-la triste.

Decidira, assim que o poeta arrumasse um emprego, casaria os dois ninfos, quem sabe pudesse tirar a menina daquele antro de insanidades. As lágrimas corriam pelo seu rosto. Já vinha imaginando a alguns anos que não seria merecedora de felicidade. Não era amiga da fortuna. Mal poderia imaginar a cena que se passava no quarto de cima. O poeta sentia-se como se apodrecesse em vida, sentia seu corpo envelhecendo, muito mais do que o do seu amigo, sentia náusea, acreditava estar errando muito nas suas incursões ao quarto da menina.

O poeta abandonava a infante em prol do amor que sentia pela tia desta. Achava-se assim um rapaz puro, pensava ter conhecido a mais bela flor do mais puro jardim, sem perceber que o jardim era de estrume. Quando a ninfeta limpava as suas lágrimas e procurava se recompor, escutaram dois tiros, saíram do quarto, gritos e mais dois estampidos. Desceram juntos, assustados, sem pensar no que poderia estar acontecendo. Ela tentando achar a mão dele. Ele foi à frente. Chegando à sala, uma cena estarrecedora. O marido de seu novo amor havia atirado no garotinho, na avó e no casal irmão de sua mulher. Esta, a dona da casa. Parada perplexa, sem esboçar reação. Com os olhos arregalados.

O homem da cadeira de rodas, ainda silencioso. Olhou para a sobrinha e atirou, não houve tempo para nada. Ele gritou: não se mova! Seu pervertido imundo. Você acha que eu não sei das suas safadezas? Como teve coragem. Essa criança era minha última esperança para acabar com a maldição dessa casa! A única que poderia sair daqui ilesa, sem nenhuma tragédia. E você a corrompeu.

Como pôde fazer isso com meu garotinho? Meu sobrinho querido? Perguntava atônito. Nessa hora o espanto veio à face do jovem autor, não compreendera o que ocorria. O pai começou a chorar. Oquê? Pensava que por acaso teria a vileza de cometer um atentado contra o infante? Uma alma um pouco mais angustiada e apática teria rido da situação. A sobrinha, que havia levado um tiro na perna disse aos gritos chorando: “ele estava comigo”. E levou outro tiro, seguido do tiro no poeta, vários tiros, todos no rosto. Olhou para a esposa, que derramava lágrimas enquanto olhava a cena.

Querida - dizia o marido na cadeira de rodas – agora você pode ser feliz. Ter o que sempre lhe foi negado graças ao meu problema e às doenças dessa casa. Quero que você bote fogo nela. Você vai ficar com bastante dinheiro do meu seguro. Jamais imaginaram que um aleijado fizesse isso. Não tem no contrato. Mas, que cara é essa? Gritava agora. Acabei com os parasitas de sua vida e vou acabar comigo mesmo. A esposa observava os corpos no chão. O do poeta e de sua filha. Ao perceber isso, causou estranheza no marido. Este pervertido acabou sendo um bem, me fez tomar a resolução que mudará a sua vida querida. Esta é a maior prova de que eu te amo.

E atirou contra a própria cabeça.

A esposa, só então se moveu, levantou da cadeira. Tropeçando em corpos, dirigiu-se até o corpo sangrento do marido. Juntou a arma do chão. Enquanto olhava a massa disforme em que havia se transformado o rosto do poeta que tanto amara teve uma idéia. Deu alguns passos, abaixou-se e beijou o amálgama de carne e sangue em que se transformara o rosto de seu amor. Ficou muito tempo chorando, praguejando aos céus. Mas feliz por ter seu amado, ao menos uma vez. Apontou a arma contra a cabeça. Puxou o gatilho e ouviu apenas um estalido seco. Haviam acabado as balas. Tentou novamente, até desabar.

Depois daquele incidente, de fato ganhara muito dinheiro. Fora um pouco feliz. Mas sempre lembrava daquele que nunca iria conseguir abandonar.

Quanto ao poeta, foi melhor assim para ele, não teria dinheiro para continuar mais nem um mês mesmo.











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PS. Esta é uma versão beta, estava ficando muito grande o conto e eu me cansei. Qualquer dia desses eu faço o upgrade.

segunda-feira, agosto 28, 2006

Adeus Dulcinéia del Toboso... Parte I


"There's a lot of desolation and pain and crisis being dealt with in my songs.”











Lembrava de velhos tempos. Como uma música podia recriar todo aquele mundo que passara havia tanto? A paisagem, os cheiros e sentimentos? Talvez fosse devido ao frio, este se assemelhava muito ao daquele inverno de dois anos atrás. Ou estar na frente de um computador, num alto apartamento com pequenas linhas de vento lhe cravejando o rosto. Talvez o fato de estar com uma roupa confortável, quente e grossa, usando pantufas, daquelas de bichinho, que fazia tanta questão.

Todavia, não mais era o rapaz de dois anos atrás, as dores agora eram muito maiores, tinha sofrido demais, não sabia ser merecedor de tanto. Mesmo assim, sofreu e quem sabe tinha aprendido alguma coisa com aqueles passos em direção das profundezas.

Chorava, as lágrimas vinham à sua face em cada nota que o vocalista proferia. Era o mesmo disco que escutara anos atrás, porém, com outro vocalista, um bootleg, um pirata de luxo, composto de sobras de estúdio. Ele ouvira falar por tanto tempo daquele álbum, e agora ali estava, no seu computador. As pequenas caixinhas fanhosas tocando. O que de forma alguma atrapalhava a qualidade da música.

Lembrava daqueles tempos de nenhuma preocupação. Nenhuma tristeza. Uma época onde havia abandonado sem mais nem menos duas bandas nas quais tocara. Parara de fazer qualquer coisa que fosse importante, férias da faculdade, férias da vida. Não queria pensar nem fazer nada.

Tempos nos quais suas maiores decisões eram se ia jogar sinuca com os amigos, se os chamaria pra ir para casa, se a encontraria, e como seria. A maravilhosa mulher que destruiu a sua vida. Linda, meiga. Completa, perfeita pra ele.

Havia um pequeno obstáculo entre eles, o fato de ser casado, com certeza isso poderia impedir muitas coisas, levando em conta a então mentalidade honesta e puritana do rapaz.

Uma menina absolutamente encantadora. Quando a conheceu sentiu muito mais do que o simples carisma que algumas pessoas exercem sobre as outras, havia um algo mais indefinível que permeava as palavras daquela menina... Passou-se pouco e ser atraído para ela era natural como respirar.

Depois as surpresas, qualidades...

Conversavam sobre todos os assuntos, sempre com humor e inteligência. Mesmo estando acostumado ao vício dos cafés e cigarros, não conseguia escapar dessa nova obsessão que tomava conta... Ou seja, trocar algumas palavras que fossem todo dia. Necessitava ser o motivo de sorriso dela.

Acontece que depois de tudo isso, um dia ela chegou triste, percebi que além daquela força imensa, havia a fragilidade... Escondida bem no fundo daquela personalidade marcante... Senti vontade de abraçar e protegê-la, parecia que a minha vida só teria sentido fazendo com que aquele rosto retornasse ao seu posto dândi de alegrias e risadas... As qualidades se completavam, um lado "áspero" numa menina absolutamente doce... Sensibilidade numa menina tão forte...

Estava completamente apaixonado. Não demorou mais do que o previsto para amá-la com uma intensidade gritante. Não podia considerar a sua vida sem ela e fazia planos, besteiras. As pecuinhas que o amor nos obriga a fazer.











Continua...
Agradecimentos à Luiza Helena Bordotti Dias pela incrível foto.

domingo, agosto 27, 2006

Adeus Dulcinéia del Toboso... Parte II




"Planejando a Queda..."

Ele separou-se, a esposa ficou mal. Normal, infelizmente, ela descobriu antes que houvesse a oportunidade completa de lhe contar o que havia ocorrido. “Traição”, palavra forte, mais que a dor de perder a esperança no cônjuge, abala as nossas bases de auto-confiança. Pior do que não mais acreditar no outro é não crer em si mesmo.

Para completar esse quadro de catástrofe sentimental, as dúvidas, todas elas. Será que ela é melhor que eu? O que ele tem de superior? Serei feio? E tudo que vivemos? Essas coisas a atormentar a mente cada instante. Uma dupla dor; pelo final de uma história que não cria ter fim e a desilusão de si mesma.

Ele foi para um lado, ela continuou no seu trono de orgulho. Mesmo assim, os meses seguintes foram intensos e felizes, por mais desconfortável que a vida tivesse ficado, afinal, não tinha mais dinheiro nem regalias às quais era acostumado. Dizem as más línguas que com certeza estas coisas fizeram o casamento perdurar mais tempo.

Contudo, neste novo tempo de certa forma árido, conseguia antever a vida futura. Sensibilizados pela situação, seus pais iam ajudá-lo, ia se formar, dar aulas, fazer mestrado. Até se casar com a futura aluna de física.

Uma pena a vida nunca ser como antevemos, à menos nas desgraças. Um dia normal agraciado com a bênção de os pais dela não estarem em casa. Neste domingo à tarde, ela disse pela primeira vez: “eu te amo”. Nequele tempo remoto, ainda cria nesse sentimento. Algumas horas de completa felicidade.

Dia seguinte, ela o liga chorando, preocupação... O pai dela havia dado uma péssima notícia, teria de trabalhar em outra cidade, a garota teria de ir com ele. O desespero tomou conta de ambos, justamente naquele dia? Como seria a sua vida sem ela agora? Perdera tudo que tinha em troca dela e agora não mais sabia o que fazer.

Propôs que continuassem vendo-se, namorassem à distância. Acontece que ela ia pra muito longe, não suportaria as saudades. Melhor terminar antes que as coisas tomassem rumos inesperados. Ele morreu. Em casa, jogou-se ao chão de dor, nunca havia enfrentado tamanho desespero. Bebeu, fumou mais de uma carteira de cigarros.

O dia da partida foi um dos piores de sua vida... Sabia, enquanto ela entrava por aquela porta, estar perdendo o que havia de mais importante em sua vida, cada passo, repetia-os em sua mente em câmera lenta, cada passo, cada matiz de cor que se tornava indistinguível a distanciando dele para sempre.

Bebi como nunca em minha vida, passava os dias sem saber o que fazer. Que reação tomar? Completamente perdido no caos da vida. Sempre havia sido irônico, assim a vida, em retaliação, pregou-lhe a maior peça. O fez trocar - assim como nos jogos televisivos - um carro por uma moto. Depois, tirou-me tudo.

Bêbado que estava, flertou com uma amiga de muito tempo. Infelizmente para os dois. Começaram a ficar, o detalhe é que na ocasião estava bêbado o nosso herói. Foi reparar no mal que havia feito para a menina dias depois principalmente quando ela largou o namorado para se compromissar com nosso Quixote.

Sentia um misto de culpa, com remorso, de certa forma devolvia o que a vida tinha me dado, fazia alguém largar uma pessoa por outra, que a abandonaria, porém, neste caso seria ainda mais cruel, pois abandonaria por vontade própria, puro egoísmo desprecavido de ingenuidade matreira.

As tragédias parecem nunca vir sozinhas, a mulher que amava, soube do incidente, afinal, havia seduzido uma amiga em comum do ex-casal. Antes, estava disposta a fazer o que fosse preciso para que pudesse continuar juntos. Todavia, quando soube do caso com a amiga, nunca mais falou com o mancebo dessas linhas.

Lembrava de velhos tempos. Poucas vezes a janela despertou tanto interesse, poucas vezes quis tanto fugir de uma situação ou problema como naqueles dias.





...
Agradecimentos especiais pela fotografia à senhorita Ana Paula Caron.
=)

sábado, agosto 26, 2006

A Revanche e a Retaliação...






"Represália
do It. represaglia
s. f.,
desforra;
vingança;
retaliação."







A vingança é um dos poucos sentimentos a realmente mover o ser humano. Talvez devido a isso não se enquadre nos sete pecados capitais. Perguntava-se, de onde proviria? Parecia muito mais uma espécie de ódio direcionado a alguma coisa, em geral, pessoas. Não conseguia enxergar mais do que um furor direcionado.

Todavia, excetuando aqueles dias do que poderia chamar “aversão gratuita a tudo e todos” – mulheres costumam apresentá-lo ao menos uma vez por mês, com certa regularidade – todo o ódio parecia ser direcionado.

Talvez houvesse uma maior vontade de potência na vingança, esta, nos movia a diferentes tipos de atitude, como por exemplo; a menina que após ser agredida por um namorado ciumento, ao invés de findar o relacionamento, resolve trair o cidadão em questão com o maior número possível de amantes. O jogador de futebol que cospe no rosto do jogador adversário após uma falta. Quem sabe até mesmo o namorado que resolve suicidar-se após a namorada terminar com ele.

Assim, podia ver ao menos essa diferença entre o ódio e a vingança. Consistia esta, exatamente no fato dos propósitos e ações gerados pela retaliação serem muito mais direcionados do que um simples sentimento de vontade de destruição.

Analisava isso, dentro do ônibus, naquela tarde chuvosa na qual, quem sabe devido ao verão, deixava transparecer um pôr do sol por detrás das árvores. Havia feito aquele mesmo caminho tantas e tantas vezes. Era capaz de lembrar de todas as casas daquele êxodo diário praticado entre a escola e a casa dia após dia. Agradecia ao menos, o fato de passar por um lago rodeado de grandes pinheiros. Morava num canto do mundo que fora abençoado.

Aquele havia sido um dia especialmente feliz no colégio. Voltava triunfante pra casa. Com as mãos e o rosto sangrando um pouco, mas a felicidade era muito maior para ele. Aconteceu que neste dia, o qual começara tão normal como qualquer outro. Ou seja, com os gritos histéricos de sua mãe para que não se atrasasse.

Neste dia tão comum, ele conheceu uma menina. Nova na escola, primeiro dia, por sorte sentamos lado a lado. A professora resolveu fazer trabalho em duplas. Por um desses acasos que a vida cria, um pouco antes de a professora começar a explicar o que deveríamos fazer houve um chamado urgente – teria sido da natureza?

Pudemos então conversar por um bom tempo. Claro, havia aquela espécie de paz que invade uma sala de aula sem professora, porém, apesar de não conseguir nem ouvir meus pensamentos, eu conseguia escutar a sua voz angelical.

Engraçado, percebo agora, que naquele momento ela não me contou o motivo pelo qual tinha trocado de escola. Grata coincidência, havíamos vindo da mesma escola. Nunca, entretanto, haviam se visto antes. Assim ao menos falaram um para o outro, pois ambos tinham trocados olhares secretos e velados por muito tempo. Pareciam ter gostado do que viram. Quando foi pegar um chiclete bolsa para oferecer à ela, apareceu em sua mochila um cd da banda favorita dela, estava ali fazia dias esquecido.

No final da aula já pareciam íntimos. Comeram juntos na cantina da escola no recreio. Final da aula, os dois pegavam o ônibus na mesma parada. Dividiram o guarda-chuvas dela, olhares e sorrisos encabulados. Chegamos, ela acendeu um cigarro, mais velha, com aquele ar maduro – para um menino. Ela deu o primeiro beijo. O primeiro beijo de verdade de minha vida, com aquele sabor delicioso de cigarro.

Acredito que tenha me viciado nesse instante, em cigarros. Perderia ainda muitos dias de sua vida observando o horizonte de sua janela, lembrando daquele e outros momentos, de quando fora feliz e como então se sentia vivo.

Estavam de mãos dadas no ponto de ônibus quando apareceu um grandalhão. Depois vim a saber que o tal havia sido o motivo pelo qual ela mudara de escola. Não falou nada, me deu um soco e empurrou. A briga havia começado.

Assim como começou terminou, quando menos percebi, ele simplesmente foi projetado ao chão. Só depois de limpar os olhos percebi o que estava acontecendo. Meu vizinho, irmão mais velho de um amigo meu, diga-se de passagem, meu vizinho de quase dois metros de altura, deu-lhe um soco que venceu a inércia e a gravidade. Bateu mais um pouco enquanto gritava: “vai bater no meu irmão”?

De fato, como vim a analisar, éramos parecidos, poderia se passar por meu irmão. Claro, eu, ele, o agressor, a menina e todos na pequena cidade de colonização italiana. O “grandalhão” foi embora. Agradeci, demos muitas risadas. Ali estava eu, naquele por do sol. Havia me vingado de todas as meninas que nunca tinham sequer reparado na minha existência para nada que não fosse dar risada. E do ex-namorado dela.

Isso sem contar que havia recebido uma promessa. A minha nova – e primeira – namoradinha, antes de subir em seu ônibus, chegou bem perto de meu ouvido e prometeu, com doçura, à noite passaria na minha casa e eu receberia um “tratamento especial”. Deu-me um beijo, subiu no ônibus.

Sempre ao ouvir a palavra vingança lembro com especial gratidão desse dia estúpido.




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sexta-feira, agosto 25, 2006

A Forma e o Desespero...




"Seize the day!"
"Something happened."
"Gather ye rosebuds while ye may."




Há alguma coisa atrás dos seus olhos, no vazio castanho deles, eu consigo enxergar, não sei o que é. Podia ver por trás daquele seu sorriso. Cada sinal, cada trejeito seu tão conhecido, cada centímetro do seu corpo. Eu conheço, admiro, idolatro. Mas a cada expressão, parecia ter algo, indefinível, correndo por entre meus dedos.

E agora, lá estava você, deitada. Fazia tempo desde que nos conhecemos, foi tudo tão casual que eu passei a acreditar em muitas coisas depois de tudo. Só não esperava esse desfecho. Não consigo mais chorar, seria tão bom, quem sabe assim me aliviasse um pouco essa condição deplorável. Depois de uma noite de desespero e lágrimas, eu pudesse voltar a sorrir, ao menos, não sentir isso tudo.

Lembro-me como se fosse nesse instante, eu detestava sobremaneira ir para a faculdade de manhã, porém, naquele dia, resolvi abrir uma exceção, não havia dormido mesmo, estava cansado de computador e nada melhor a fazer me apareceu. Cheguei e as pessoas me convidaram pra entrar na sua sala de aula.

Eu te vi naquele canto, depois fiquei sabendo que você reparou em mim também. No canto oposto, separados por tantas pessoas, pelo fato de não nos conhecermos... Um abismo entre nós. Mas aos poucos a mágica aconteceu, por algum motivo, que não sei designar, você veio falar comigo. Conversamos um pouco.

Eu não havia dormido. Como poderia ter sido gentil com você? Depois eu me retratei, afinal, você nem sempre foi gentil comigo, não no início. Eu consegui seu telefone, te levei em casa, te chamei pra sair, tantas coisas, tudo deu certo, coisas ruins aconteceram, mas por mais mal entendidos que houvessem, eu estava feliz. Derrepente estávamos namorando... Posso dizer que tive dias felizes na minha vida.

Sempre me perguntava o que ocorria, qual era o motivo daquelas lágrimas que eu furtava de seus olhos desprecavidos. Perguntava-me o que atormentava a sua mente. Tanto tempo quis ser a única pessoa a te conhecer inteiramente, creio que fui quem chegou mais longe, talvez não fosse suficiente. Apesar disso ainda era a única pessoa que estenderia o braço, quando você tivesse afundando.

Apenas uma vez ao menos eu quis que você tivesse me contado o que estava acontecendo, quem sabe não fosse tarde demais. Por detrás daquela dor imensa dos seus olhos, o que acontecia com seu corpo.

Agora, você ali. Uma vasta sala com chão de madeira, tábuas imensas de um tom escuro, brilhante e velho. Grandes janelas que deixavam ver o sol por detrás, algumas árvores e um pequeno jardim, sem flores. No centro da sala, apenas você. Olhava para as suas mãos, você nunca soube, mas eu sempre as admirei. Não me abandone querida. Não pense que não pode ser salva. Sempre estarei ao seu lado, de mãos dadas com você. Eu nunca vou soltar, há um elo entre nós que nada, nem nós mesmos podemos desfazer. Não importa o que aconteça, que tudo mude ou fique estranho, sempre estarei ao seu lado.

Por favor querida, desperte, descanse dos seus sonhos pesarosos e lúgubres. Descanse em mim. É tão difícil olhar seu rosto branco e os cabelos curtos com esses olhos fechados. Mesmo que os sonhos pareçam partidos, eu estou aqui. Deixe-me ser o único a te entender. Deixe carregar as suas dores e seus pesares. Mesmo que você ache que não consegue mais andar. Por baixo do sangue em sua face existe algo, e você não quer me dizer.

Mesmo que achemos que tudo o mais está errado. Mesmo que nada pareça ser como deveria, a desilusão nos ronda e ameaça, mesmo assim querida, amanhã o sol irá nascer novamente, e se você não estiver comigo, eu não mais poderei enxergar.

Nós temos todo o tempo do mundo para recuperar o que perdemos, não se entregue querida, não se renda amor...

A vida não será sempre assim meu amor, olhe ao nosso redor, ouça os sons, enquanto estiver comigo, viva.

Saiu, não adiantava esperar, mais um dia e o coma permanecia, se ao menos ela tivesse lhe contado os sintomas...





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quinta-feira, agosto 24, 2006

Apenas Vazio...


"Emptiness"
___________
Sim, não sei sobre o que escrever, ou o que. Vou me reabastecer de vida e volto amanhã. Beijos, desculpem a decepção.

quarta-feira, agosto 23, 2006

Quando Suprimir?





It's all come back too clearly
Yes I loved you dearly
And if you're offering me diamonds and rust
I've already paid”


A lua encoberta de nuvens chorosas, todavia, conseguia enxergar além do túmulo, via o medo da sua própria existência. Um abismal sentimento de terror perante o fato de ainda estar ali, mesmo depois de tudo. Esse sentimento era a única tradução possível do vazio que experimentava. Emoções curvadas, distorcidas, deformadas. As sombras se movendo enquanto todo o resto estava inerte. Sentia naquele momento, o peso de ser um criminoso.

Tinha uma maneira muito peculiar de resolver os problemas, ele os abandonava. As pessoas não iriam ajudá-lo, muito menos ele próprio perdido nas ruas. A escuridão, sua única companheira, e aquela sombra... Sorrindo um sorriso satânico. Nenhum amigo, se escondendo nas sombras, rindo do que um dia chamara reputação.

Os humanos julgam saber alguma coisa sobre os outros, é tão ridículo, prepotente e infantil isso. Ele, seu eterno companheiro, que vivia "consigo" não sabia ao certo. O complô baseado em ignorância, mentiras, erros de interpretação e julgamento já havia cumprido seu objetivo. Como um dia escutara de um grande amigo: "te depreciaram, mas no fim a verdade sempre aparece".

Não acreditava nessa tal verdade. Estava muito feliz, as pessoas com as quais houve problemas e que importavam já haviam partido e estava tudo bem. Suas mãos tinham cumprido o objetivo sangrento. Pessoas que não manipulavam frases, que não são prepotentes, não julgam por aparências, frases dispersas, comentários irônicos, sarcásticos ou cômicos. Nunca as conhecera para poupá-las.

A vida andava tão sem graça. Parecia sentir pena: “a minha impressão geral é que, quando falamos à humanidade, via de regra, elas não têm uma experiência de vida, uma sensibilidade que permita entender o quão profundo somos. Isto por que falamos direto à individualidade, e, da dificuldade do desenvolvimento da individualidade em meio a um pensamento ditado pela conformação, pela negação da busca de um tipo de vida que transcende a experiência cotidiana tão pobre em emoções. Quando elas se deparam com o bom humor e a ironia, para espanto, o que acontece não é uma não apreciação e sim uma impossibilidade de "ver" aquelas vidas, aqueles sentimentos, num grau de interiorização que talvez elas nunca tenham chegado”.

Nos subúrbios, naquela grande cilada que apelidavam de vida, o mal estava presente. Em todos os lugares, sua única amiga, a morte, afiava a sua lâmina.
Não mais, nunca mais, espalharia espírito aos ventos. Pensava ser o bom senso a coisa mais abundante no mundo, cada homem achava que já possuía bastante dele e não queria mais para si próprio.

Olhava o corpo ao chão. Será que você é capaz de fazer algum julgamento sensato sobre a minha pessoa? Será que você já acertou alguma vez? A pretensa fachada de conhecimento a meu respeito não incomoda. Qualquer pessoa sensata veria o papel ridículo que faz afirmando conhecer alguém com quem teve apenas meia dúzia de trocas de olhares.

E mirava aqueles olhos, sangrando. Sentia-se incomodado com isso. Parecia perguntar: “porque fez isso comigo?”. “Porque justo eu”. Era a única bela dama que passava naquele instante, pensava. Tire esses malditos olhos de mim! Gritava silenciosamente.

Uma hora eu não explico nada, derrepente "dou explicações"...Estranho... Infelizmente você sabe por "ouvir dizer"... Entendia que isso gerasse uma visão diferenciada do que necessariamente é o real. Queria mesmo que o mundo fosse um lugar justo e esse tipo de coisa ocorresse.

Continuava mirando o amontoado de carne no chão, e a sombra, ao seu lado. Lúcifer. Escutando a voz que conhecia tão bem, sempr invadindo seus pensamentos. Um par de luz muitos anos atrás, e a morte. Caracterizavam uma espécie de trindade profana. Não podia conhecer nada do que se passava ali, dois espectros e um corpo. Além da chuva, nada mais.




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terça-feira, agosto 22, 2006

O universal ou a totalidade?









universo


do Lat. universu, todo inteiro
s. m.,
conjunto de tudo quanto existe;
todo o espaço e a matéria nele contida (galáxias, estrelas, planetas, cometas, satélites, quasares e buracos negros);
o Mundo (grafado com inicial maiúscula);
a Terra (grafado com inicial maiúscula);
a universalidade dos homens (grafado com inicial maiúscula);
conjunto que constitui a totalidade de algo;
adj.,
todo;
universal.













Deitado, à noite no seu quarto desarrumado, pensava na ordem das coisas no universo. Analisava, do alto de sua ignorância, o funcionamento de cada átomo. Pensava que, se cada parte de todos os elementos e ligações bioquímicas de seu corpo tinham uma função específica, eles iam cumprir determinada tarefa. Porém, à partir do ponto que um determinado número de elementos, somado à um determinado número de ligações produzia fisicamente uma única situação. Perguntava-se: as ações são de certa forma programadas?


Exemplificava para si próprio. Seguindo essa infinita rede de cálculos, poderia ver uma espécie de linha mestra determinando, junto com os cálculos de outros elementos, ser atropelado por um ônibus às três da tarde no passeio público, ou morrer dia 21 de agosto de 2020, chorar depois de amanhã, entretanto, uma espécie de linha mestra impossível, pois estaria inserida num universo cheio de elementos paralelos, poderia ocorrer qualquer incidente no meio e mudar o caminho.

Uma predisposição a um determinado fim. Analisava que poderia sempre existir sempre vários fatores que mudassem o fim de sua predisposição, sua programação. Um ser “programado” em sua linha guia poderia incidir em outro. Por exemplo, eu tenho de ir até o ponto c, porém, outro ser vai ter de estar naquele ponto no mesmo momento, dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar, simples, um dos seres vai ter sua rota desviada.


Pensava na inutilidade de seus devaneios, ao mesmo tempo em que as achava fantásticas. O universo parecia se esconder sobre aquelas linhas, no fundo, não passava de matemática e física, belas, sim. Apenas sentia que havia uma espécie de algo a mais... Indefinível.

Pensava nas possíveis conseqüências de cada ato, cada segundo, um turbilhão quase infinito de cálculos e processos. Cada intromissão, cada desvio suposto estava programado. Considerava naquele instante os eventos de sua vida, as pessoas que incidiram em todas as situações, e o quanto eu estava programado para aceitar as incidências.

O livre-arbítrio uma farsa. Afinal, mesmo um hipotético fator desviante já estava programado, assim como a decisão. Desde sempre, até a eternidade, cada átomo seguiria seu caminho, gerando todas as forças possíveis. Desde o início dos tempos, até o final, nada dependia de sua vontade. Porque ela simplesmente não existia. Era um abuso de linguagem, um conceito absurdo que não denotava a realidade.

Não havia meios de evoluir, não havia como controlar as suas ações, emoções, nem ser classificado com “bom” ou “mau”, afinal, não havia como escolher a sua índole, nem nada, uma simples marionete de uma rede infindável de cálculos. Não via nada em si naquele instante a não ser um amontoado de partículas, pedaços de carne que se soltam aos poucos, lentamente, até definhar.

Fora menos difícil do que imaginava aceitar a sua insignificância. Procurara respostas, o que parecia realidade bateu de frente contra ele. O ser humano hiperbolizou o conceito de tempo, criando a eternidade, e pra fugir da morte, criou o termo perfeição... Criando deus...

Tentava na sua insignificância recém desvelada, analisar o sistema como um todo, se algo fosse capaz disso, poderia determinar o que aconteceria em cada evento. Acaso houvesse uma maneira de calcular todos os zilhões de processos do mesmo tempo, a cada instante, tudo seria previsível.

Mas a inteligência era muito limitada, além do mais, as suas percepções poderiam alterar todas as respostas. Pensava na plausibilidade da teoria do Big Bang... Todavia, ela começa a explicar a formação do universo tendo como tempo igual zero no momento da grande explosão. De onde surgira a energia pra criar a explosão? Não poderia vir do nada. Se, por acaso, estava desde sempre ali, porque explodir naquele determinado momento?

De acordo com as conclusões mal acabadas a que havia chegado naquela noite, se aconteceu, estava programado. Apenas não enxergava os cálculos, assim como poderia olhar para uma forma geométrica sem enxergar os teoremas... Os sentidos poderiam estar enganados, eram o fator determinante da sua noção de realidade. Todos os argumentos perdiam a validade.

Levantou-se, deu uma olhada esnobe na bagunça do quarto... E saiu apressado dali, sabia que tinha um destino a cumprir, de certa forma, não poderia mesmo se atrasar.




...

PS... Queria agradecer a duas pessoas por conversas, discussões e por me aguentarem falando e questionando sobre esse tema. Obrigado Diego e à minha querida Sandra Heinemann, que me deu as explicações sobre física. As quais, se eu tivesse aprendido teria escrito coisa muito melhor. Aproveito, pra agradecer a May, por tanta inspiração e tantas risadas e a todos os amigos e amigas que eu não vou citar, que de alguma forma colaboram comigo e lêem as famosas “linhas rameiras”.

xD

segunda-feira, agosto 21, 2006

O Sagrado e o Profano...

"Through profane eternity he drinks the nector of immortality."

Detestava naquele instante cada segundo vivido, cada coisa que havia um dia dado um passo para o abismo. Nunca tinha sentido tamanha revolta pela existência como um todo, queria que tudo se consumisse numa chama de muita dor e desespero. O silêncio o envolvia completamente, tão profundo que ouvia a penas a sua respiração ofegante, suava, sangue em suas mãos. Ódio em seu corpo. Parecia uma besta selvagem que mesmo ferida não larga a luta, não abandona o campo de batalha nem mesmo após a morte, apodrecendo na eternidade junto às armas.

Havia uma lânguida mulher em seus braços. A cólera lhe causava um furor, estava fora de si, enjoado, angustiado, explodindo de amargura e náusea. A misantropia invadia cada célula de seu corpo. Não conhecera a piedade por parte de ninguém, nunca houvera visto um ato de bondade, nunca tivera motivos pra exalar um pequeno sorriso. Sua imagem contrastava com a beleza da mulher em seus braços, toda vestida de branco, um longo vestido manchado de sangue. Estavam num campo vasto, com apenas uma árvore, nenhum ser humano próximo, se isolara assim por causa dos sentimentos contrários, os pássaros ao menos não faziam mal uns aos outros.

Naquela desoladora imensidão vazia e silenciosa, houvera um dia que havia sonhado com a chegada dela, com seu sorriso ela voltaria para ele e o tiraria daquela neblina vazia, porém, agora estava tudo terminado, ela nunca mais voltaria, trazendo de volta o rio de sol e a vontade de viver. Sentia a peste, doença, o odor de podridão exalando de cara poro. Em seus braços a criança soltava lágrimas, que queimavam seu rosto pálido de inocência morta.

Mirava aquele rosto desfigurado e belo. Olhe para mim! Começava a chover, antigos sonhos que a tempestade trazia, antigas esperanças, abandonadas havia muito. Naquele instante não era nada além de partículas de podridão, se esvaindo na chuva, a água lavava o sangue em suas mãos, a coroa de espinhos na sua testa tornava a ser verde... O no corpo dela parecia cada vez mais alvo com a chuva, mas tornava a sangrar... Os pregos em seu peito doíam, olhava as órbitas vazadas daqueles olhos castanhos que foram tão belos um dia...

A dor estava definitivamente instalada naquele receptáculo de mágoas, nunca seria diferente, não havia mais como se purificar, o grito mudo ecoava na sua mente, e o sofrimento aumentava cada vez mais. A fraqueza dela o tornava mais forte e fazia resistir à dor. Perdera tudo mais de uma vez, aquele corpo inerte em seus braços começava a não significar mais do que uma vida a menos para ele, esquecia-se tratar-se de sua amada, a que dividiria com ele pra sempre os gritos nos porões do inferno. O destino traçara de modo irônico, cruel e violento a sua existência. O definira.

O único momento semelhante à vida que tinha, era quando fechava os olhos e milhões de faces vinham em sua mente, todas as pessoas que havia visto, conhecido, que havia amado e odiado. Gente morta, apodrecendo, fogo e destruição. E ela... Sempre. Todas as vezes que respira, as narinas ardem, como se aquela brisa fosse fogo, enchendo seus pulmões de podridão fétida.

Ela nunca saberia. Não seria profanada mais ainda de sua pureza mórbida. Nunca sentiria nada novamente, assim era melhor, pensava. Nada havia a fazer até o final da eternidade, do que ficar ali parado, com você desfigurada nos braços, por toda a eternidade, chuva, depois sol... Será que depois de todas as suas partículas se desfalecerem,,. E você virar um amontoado de poeira em meus braços, o tormento ia acabar? Mas você definhava eternamente devagar. Inverno verão, silêncio e mais nada além dos seus gritos. Jogaria a sua cabeça para o lado, junto com as outras, do lado das outras Pérolas. Por vezes, quando o eterno ódio ficava um pouco ameno, tencionava se ali era o inferno.

Ela ali, em seus braços, sangue ainda vertia dos lábios carnudos.

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domingo, agosto 20, 2006

"O desespero da minha vida"

"Mais rios de sangue..."





Às vezes eu recebo algumas críticas por causa das coisas que escrevo aqui e em outros lugares. Devido, eu creio, a esse tom realista/naturalista que eu uso, histórias que as pessoas julgam serem de certa forma sombrias, exageradas, etc. De vez em nunca eu vou colar uma notícia no blog, elas são muito piores do que a ficção. O ser humano é muito mais doentio do que pode imaginar nossa vã filosofia. Quanto à mim, continuo bem, obrigado.





"É sem qualquer terror que eu vejo a desunião das moléculas da minha existência."
Donatien Sade



Um homem matou três filhos, com idades entre 6 e 17 anos, e suicidou-se em seguida em Alphaville, em Santana de Parnaíba, na Grande São Paulo. Vizinhos teriam escutado os barulhos, porém, acharam que eram rojões. Na oportunidade, ninguém chamou a polícia. O empresário, teria deixado uma carta para a mulher. Segundo Gilson Galtaroça, amigo da família, o casal estava em processo de separação, e, na carta, o corretor dizia que a mulher iria ficar rica, mas ele iria acabar com a família.

De acordo com informações que a polícia repassou a familiares, o homem sedou as crianças antes de matá-las - o que aconteceu por volta de 3h de sexta-feira em um apartamento no Condomínio Maison De Ville. A filha mais velha do casal foi morta enquanto dormia. Elk Júnior, 15 anos, teria escutado o barulho, levantado e, quando foi pedir ajuda, levou um tiro nas costas. Caído, recebeu outros dois disparos na cabeça. O menino mais novo, Derek, 5 anos, também teria sido morto dormindo. Após os triplo homicídio, o corretor suicidou-se.

Elk estava em processo de separação da mulher e, antes de matar os filhos e se suicidar deixou uma carta, dizendo que ela herdaria todos os bens da comunhão. Porém, ressalvou que a família acabaria.

Segundo o jornal O Estado de S.Paulo, o título da carta era: "O desespero da minha vida". A mensagem foi encontrada dentro de um caderno, próximo ao corpo de Elk. Havia ainda um mapa com o local onde estão os jazigos da família. Ao final da carta, escreveu: "Perdoem-me, mas preferi assim".



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Fonte: Notícias do Terra.
http://noticias.terra.com.br/brasil/interna/0,,OI1100778-EI5030,00.html

sábado, agosto 19, 2006

A Quermesse...

"Perversidade... Caos e Desgraça..."


Quermesse,


do Fr. kermesse <>

s. f.,

festival beneficente, com bazar, no qual se leiloam as prendas oferecidas.






Acordava, já era tarde, naquela pequena cidade, quente, desolada, abandonada, terra sem lei. Olhava pela janela, derrepente um amontoado de gente na frente de sua casa, acordara mal aquela manhã, nem lembrava que estavam ali fazia dias, olhava aquele povo, fechava a janela, trancara-se em seu quarto.

Olhava seus livros... Apreciava vagarosamente as bordas deles... Poucos clássicos restavam naquela prateleira, certa vez numa discussão com um amigo sobre isso, dissera: os heróis de Homero ou Racine, os Aquiles e Agamenons, começam a me parecer muito do gênero bocejante. Podem me divertir durante um quarto de hora, mas logo depois estou pensando em outra coisa. Não tenho ânimo em ler sobre os costumes dos esquimós ou dos aborígines, esses povos são demasiado diferentes dos que foram meus amigos ou meus rivais. É verdade que muitos dos meus contemporâneos imaginam amá-los, porque julgam enaltecer-se os admirando. Quanto a mim, começo a perder todos os preconceitos enraizados na vaidade da primeira juventude. Assim, os amigos não disseram mais nada.

As pessoas na frente de sua casa estavam se dirigindo pra uma dessas procissões de interior, uma festa religiosa, destinada a dar alguma esperança aqueles seres que não tinham mais nada... Levavam foguetes e enfeites, alguns carregavam artefatos perigosos colados ao próprio corpo. Um pequeno garoto chamou a atenção, em particular devido ao pequeno tamanho e a quantidade de carga explosiva que levava consigo.

Havia uma quantidade tão grande de explosivos junto ao menino que certamente sairia voando se uma fagulha passasse perto dele. Ao lado de um pequeno jumento, mais carregado ainda. Rocinante voaria novamente, dessa vez mais alto acaso o moleque resolvesse se passar por Quixote.

Conhecia o pobre garoto, desde a infância, um crédulo, o que lhe diziam, tomava por verdades eternas e absolutas, como não sabia o que era mentir, cria que os outros tinham essa estranha e inexplicável demência. Seus pais, possuidores que eram de estranhas distinções, quem sabe tenham sido a gênese da peculiar psiquê do garotinho. Das miudezas de espírito a que eram acometidos, talvez a que mais causasse embaraços era a credulidade somada à inconstância. Se lhes diziam que alvo era o seleto, de todas as formas propunham-se a tornar suas vidas cândidas, honrosas e dedicadas, entretanto, no dia seguinte, lhes fosse imputado o sombrio como melhor, no mesmo momento tornavam-se lúgubres, pesarosos e pessimistas.

Certamente o leitor, se existir algum, perceberá várias criaturas ao seu redor que se encaixam nesse perfil ignóbil de credulidade. Igrejas, organizações, partidos e toda sorte de antros sonhadores recheados de devaneios estão cheio deles.

Voltara à janela, aquele espetáculo bizarro o instigava, via as pessoas e tencionava o porquê de elas estarem se submetendo aquilo. A imagem estava chegando, era o momento de emoção mais gritante, as pessoas choravam, gritavam, atropelavam umas às outras pra quem sabe poder tocar na santa e ter assim as suas vidas mudadas.

Criam com aqueles gestos poder resolver os problemas de sua vida... Caravana, formigueiro humano, estavam acampadas ali fazia dias, afinal, a imagem demorou pra chegar da capital até a cidade, houvera um problema no caminho. A Santa deveria ser trazida por meninas virgens, digamos que houve um pouco de falta no mercado desse produto, cada vez mais escasso...

A comida das pessoas acabou no primeiro dia, entretanto, ninguém passou fome, onde uma comia, todos se aproximaram. A solidariedade foi a única coisa que aprenderam, aquelas pessoas, sovinas a vida toda, e mesmo assim a praticavam somente naqueles dias e no natal. Desde pequeno acreditava que o egoísmo fosse a chave pro sucesso nas finanças... Via que não, aquelas pessoas não dividiam nem mesmo um copo d’água, mesmo assim, devido ao contexto de miséria desde a nascença nunca tiveram nada...

As condições no acampamento eram as mais precárias possíveis, o único lugar onde poderiam se banhar era um banheiro pequeno, sujo e abafado, construído ás pressas. O teto baixo, de zinco, amplificava o calor. A pequena janela de madeira não permitia a visão além do muro alto que se estendia à frente. Um clima depressivamente sujo, quente, com calor, abafado... Um banheiro velho de rodoviária seria uma mansão perto daquele lugar.

Olhava aquele povo sofrendo, sacrificando-se por uma esperança fútil, aderiam sem prova alguma à auto-mutilação moral, às cotoveladas para poder ficar mais perto da Santa. A vontade daqueles homens, mulheres e crianças era imensa.

Comparava todos àquele garoto do jumento... O jumento, única vítima dessa tragédia, pois não estava ali por vontade própria, isso ficava evidente ao olhar a expressão dele. Expressão e vontades de um jumento? Começava a ter idéias tolas.

Havia dormido demais, voltaria pra cama.


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sexta-feira, agosto 18, 2006

Apenas uma Leve Brisa...

"White Blossons"...


Por vezes, somos acometidos de uma realidade que em nada se parece com a nossa, melhor diria, com a que estamos acostumados. Como acontece quando somos "jogados" de frente a uma situação estranha ao que chamamos de dia-dia, a rotineira mácula que nos segue a cada lúgubre e cinzenta aurora.

Nessas ocasiões somos de certa forma forçosamente iludidos, pior, auto-iludidos, nessa busca eterna, ignorante e pueril. Acaba acontecendo o esforço comum a todos os vermes: fugimos da própria mediocridade. Vemos milagres, enxergamos novas realidades, temos esperança. Gentilmente dançamos beira ao nosso abismo pessoal. Todos os esforços medíocres no intento de crermos em algo maior que o eterno pasmo com o absurdo da vida.

Pensava no passado, deveriam ter falado anos antes que não se pode passar a vida inteira planejando a sua felicidade no futuro. Tem de ser feliz agora, hoje. Lembra de quando ficava feliz ao acordar? Era um momento realmente mágico, por mais problemas e complicações que tivesse no dia a dia, a felicidade de tê-la ali, ao seu lado, era inexplicável. Detestava cozinhar, porém, quando fazia algo para ela, parecia estar em outra atividade, não era bom cozinheiro, preferia sair. Quando percebe, o tempo passou, e não se pode recuperar.

Quando foi a última vez que disse que a amava? As coisas foram mudando, derrepente o tempo foi passando, falavam-se cada vez menos. Detestava cada lágrima que ela soltara por sua causa. Ficava consolado pelo fato de que estando longe dele, quem sabe fosse mais feliz. Queria a felicidade dela.

Muitas vezes era acometido por uma saudade lacerante. Lembrava da vez que passou perto da casa dela. Fazia pelo menos dez anos que não a via. Talvez nem lembrasse dele. Viu uma menina, branquinha, cabelos curtos. Nesta hora sentiu uma dor misturada à felicidade, sabia que ela deveria estar bem, a menina era muito parecida com ela. Brincava em frente ao portão.

Chorei. A vontade de sair correndo, de entrar pela porta e dizer tudo o que ficara trancado dentro de si, havia tantos anos. O amor da sua vida estava ali, poucos metros. Porém, agora ela tinha uma família, outra vida, tivera a sua chance. Derrepente, um susto, aparecera na janela, chamando a filha. Não mais aquela garota de 18 anos que conhecera, sim uma linda mulher. A idade tinha transformado a sua beleza, havia conseguido um ar de leve seriedade. Por sorte ela não o viu.

Lembrava do momento em que ela dissera que o amava. Deitados, ele com lágrimas nos olhos, ela ao seu lado na cama estreita. Não julgava mais ser capaz de sentir novamente aquele momento único. O começo de uma paixão correspondida. Não que considere impossível ou mesmo complicado o fato de alguma desvisada moça vir a tencionar deseja-lo. Mas assim? Tão inesperado e ao mesmo tempo ansiosamente aguradado por tanto tempo? Foi bom, muito bom, com uma leve brisa e um cheiro bom, que deixou as coisas mais maravilhosas, fazia anos. A brisa... O cheiro... Os sons... E ela. Que sem ela nada seriam o resto.

Parecia que derrepente, todos aqueles anos haviam passado sem que percebesse. Era como se um dia tivesse ido dormir, com ela ao seu lado e quando acordou estava ali, naquela calçada. Sofreu demais, amargura. O amor havia o ensinado a ter raiva. Depois, com o tempo a amargura se transformou em nada. Mas não importava, a felicidade dela realmente era algo importante para ele, apenas queria saber onde haviam parado aqueles anos todos. Sentia-se feliz, insuportavelmente feliz, sofrera tanto em sua vida que não mais sentia os amargores e dissabores da vida, não lembrava de nada antes do instante passado. Sentia apenas uma calmaria.
Agradável brisa.


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quinta-feira, agosto 17, 2006

Rameiro...


Tripaliado... O Estupro.


De acordo com o gênesis bíblico, o trabalho é uma forma de punição. Pelo pecado original, Adão foi condenado a arrancar do solo, com seu suor, o alimento de cada dia, ano a ano destinado a essa espécie de punição, uma coerção mais que penosa, uma maldição. O homem, na sua adaptabilidade, seu esforço contínuo para enganar a si e outros em busca da felicidade, buscou transformar o ofício em uma função digna, uma atividade transformadora da natureza, buscando satisfazer as necessidades, trazendo melhorias, logo, para ser um homem digno, haveria de se trabalhar. Esquecer que o termo provinha de tripiliare, “torturar com o tripálio” uma espécie de aparelho, formado por três pés, destinado a que? Uma tortura reservada a sujeitar e imobilizar certos animais para ferrá-los, no caso, a besta é o próprio homem.

Com o despertar do relógio, aquele frenético “bip bip bip”, não pensava dessa forma nosso protagonista, simplesmente odiava. Julgava ser o trabalho, definitivamente, uma maldição eterna, pois esta nunca acaba. “Dia após dia a produção tem de continuar”, pensava, ao olhar para a janela ainda antes de nascer o sol. O que mais o incomodava era a sensação de nunca findar a tarefa. Quando se tem algo que pode ser concluído a sensação deve ser menos penosa. Pode servir de exemplo a pintura dos homens nus que tentam encostar os dedos, no topo da Capena Cistina. Michelangelo deve ter sentido o remoto prazer de ver a obra pronta. Isto serve de alívio ilusório... Porém, acaba-se uma obra qualquer, ainda a fome persiste sempre presente. O maior vício, assim como a sede. Viciamos-nos na barriga de nossas mães e nunca conseguimos largar.

Vendo sob este prisma é tudo muito simples. As opções que temos em nossas vidas neste aspecto são duas: podemos depender de alguém ou de algo, ou trabalhar. De qualquer forma, algum ser terá de cumprir determinada função para provir sustento para si e, ou, para outrem.

Não tomara café da manhã, menos ainda banho, esquecera-se faz tempo das convenções sociais. Sai apressado, corre. Ônibus lotado. A soma do desconforto, calor e mau cheiro criavam a santíssima trindade da náusea. Imaginava-se uma sardinha, sabia ter muito em comum com o enlatado. A gestação era mais ou menos como o oceano, livre, sem nenhum pensamento e nenhuma preocupação. A rede assemelhava-se ao médico, puxando-o pelo pé. Igualmente a sardinha, somente poderia ser considerado um “cidadão” cumprindo seu dever social. O peixe só prestava quando na lata. Brotava um sorriso dos dentes amarelados, imaginando se as sardinhas teriam de usar gravatas na repartição.

Sentia uma pequena inveja do peixe, afinal, a lata não deveria ser tão quente, o termômetro da rua marcava trinta e quatro graus. Na prateleira a lata não trepidava, quem sabe um pouco no caminho até a casa do comprador, afinal, uma vida amena dividida entre prateleira e armário.

Quanto ao cheiro, neste quesito a sardinha estava empatada com ele, todavia, ela não tinha narinas, não precisava se tomar por isso. O calor amplificava o odor de humanos no ônibus. Baixinho, ficava à altura da axila das pessoas mais altas. Apenas uma hora e meia e chegara ao centro, não precisava gastar com metrô. A viagem de metrô levaria apenas trinta minutos, porém, infelizmente, era um luxo ao qual não podia se permitir. Após descer no ponto, uma caminhada de dez minutos. Outrora se divertia ouvindo música, mas fora assaltado tantas vezes que agora colocava um longo casaco (mesmo no calor infernal), desgrenhava o cabelo e escondia o celular dentro das botas.

Finalmente, chegara ao “escritório”. A velha repartição abandonada fazia muito tempo. Usava uma máquina de escrever. Era um desses raríssimos casos de funcionário público que realmente trabalhava. A lata escura, cinzenta e apertada. Uma mesa de madeira sem pintura e um armário com arquivos e pastas infinitos.

Maquinalmente, preenchia relatórios, enquanto tentava pensar em algo menos desagradável que seu ofício. Pensava já na hora de sair, parecia que havia feito aquele mesmo relatório a vida inteira, parecia que fazia dias que ali estava mediante tamanha dor que sentia por todo o corpo e pela cabeça. Passara-se cinco minutos.

Uma das coisas que mais odiava era seu vizinho, do vidro embaçado conseguia ver e ser visto pelo chefe, deveria ser uma espécie de medida restritiva, assim, nenhum dos dois poderia dormir naquele lugar. Não sentia segurança pra dormir, poderia morrer sufocado, pensava, Nem janela tinha a sala...

Se ao menos tivesse uma janela, por onde passasse de vez em quando uma bela moça com a qual pudesse sonhar. Era um jovem romântico, bondoso, inteligente e sonhador, ou seja, ia permanecer solteiro até seus últimos dias. Todo caso, houvesse uma janela poderia imaginar as belas moças em vestidos de noiva, ou mesmo dar risada de uma criança, ver um bebê... Porém, com aquelas paredes verde musgo, não conseguia nem imaginar. O tempo continuava a passar, naquele ritmo de sempre, apenas mais quinze minutos. Resolvera fumar um cigarro, o chefe havia saído e não retornaria em breve.

Fumaria escondido no banheiro. Não mais sentia ânsia de vômito e enjôo ao entrar naquele lugar, parecia nunca ter sido limpo, não entendia como poderia ser tão sujo, haja visto que ninguém o usava. Poderia afirmar isto com certeza, a sala dele ficava de frente pro banheiro, até mesmo recebia o odor, mas ele nunca via ninguém ali entrar.

Pegara um marlboro vermelho, maço, o único luxo que se permitia na vida. Sistemático, fumava cinco cigarros no trabalho, e só, uma carteira durava 4 dias. Era seu gasto mais dispendioso, contudo, raciocinava ser um lucro, pois se não fumasse, mataria-se, ou simplesmente não conseguiria mais ir ao emprego, deixaria mãe doente em casa e abandonaria tudo aos pés de si mesmo. A estratégia era muito simples, ele só poderia fumar no serviço, assim, viciado que era, ia trabalhar pra poder fumar...

Mais que um fumante, um apreciador, degustador de cigarros. Olhava a fumaça subindo, devagar... Aquele sem dúvidas era o único momento de prazer de seus dias. Divagava que o malrboro box era melhor do que o maço, achava que isso ocorria porque a caixinha fechava melhor, assim, o fumo permanecia seco mais tempo, queimando melhor.

Fim do cigarro... volta ao inferno. Suava, preenchia, suava mais. Assim passava dez, doze horas de sua vida, todos os dias. O chefe chegava à sala, pedia para ele executar alguma tarefa que não fazia a mais remota idéia de como fazer. Acreditava piamente que o chefe gastava todo seu tempo em casa, pensando em uma nova atividade diária, ou uma forma de falar que ele não compreendesse. Como não sabia o que fazer. Ficava ali, parado, esperando... O chefe voltava e ele recebia uma bronca grosseira. Era estuprado todos os dias de sua vida, ao menos moralmente... Após a bronca o patrão explicava como se fosse ele uma criança, gritando como a um criminoso. Geralmente o chefe designava-o para alguma função que não era dele, assim o patrão poderia fazer nada, naquela sala, que até uma janelinha tinha.

A janelinha. Sonho de uma vida toda... Triste sina, um dia tentou virar a mesa, de modo a poder ao menos ver um pedacinho da janela, mas o chefe não deixou, continuava seus dias com as paredes verdes, o cheiro do banheiro, reclamações e sem janelas.

Uma simples janelinha... Era seu maior sonho.

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