
Tripaliado... O Estupro.
De acordo com o gênesis bíblico, o trabalho é uma forma de punição. Pelo pecado original, Adão foi condenado a arrancar do solo, com seu suor, o alimento de cada dia, ano a ano destinado a essa espécie de punição, uma coerção mais que penosa, uma maldição. O homem, na sua adaptabilidade, seu esforço contínuo para enganar a si e outros em busca da felicidade, buscou transformar o ofício em uma função digna, uma atividade transformadora da natureza, buscando satisfazer as necessidades, trazendo melhorias, logo, para ser um homem digno, haveria de se trabalhar. Esquecer que o termo provinha de tripiliare, “torturar com o tripálio” uma espécie de aparelho, formado por três pés, destinado a que? Uma tortura reservada a sujeitar e imobilizar certos animais para ferrá-los, no caso, a besta é o próprio homem.
Com o despertar do relógio, aquele frenético “bip bip bip”, não pensava dessa forma nosso protagonista, simplesmente odiava. Julgava ser o trabalho, definitivamente, uma maldição eterna, pois esta nunca acaba. “Dia após dia a produção tem de continuar”, pensava, ao olhar para a janela ainda antes de nascer o sol. O que mais o incomodava era a sensação de nunca findar a tarefa. Quando se tem algo que pode ser concluído a sensação deve ser menos penosa. Pode servir de exemplo a pintura dos homens nus que tentam encostar os dedos, no topo da Capena Cistina. Michelangelo deve ter sentido o remoto prazer de ver a obra pronta. Isto serve de alívio ilusório... Porém, acaba-se uma obra qualquer, ainda a fome persiste sempre presente. O maior vício, assim como a sede. Viciamos-nos na barriga de nossas mães e nunca conseguimos largar.
Vendo sob este prisma é tudo muito simples. As opções que temos em nossas vidas neste aspecto são duas: podemos depender de alguém ou de algo, ou trabalhar. De qualquer forma, algum ser terá de cumprir determinada função para provir sustento para si e, ou, para outrem.
Não tomara café da manhã, menos ainda banho, esquecera-se faz tempo das convenções sociais. Sai apressado, corre. Ônibus lotado. A soma do desconforto, calor e mau cheiro criavam a santíssima trindade da náusea. Imaginava-se uma sardinha, sabia ter muito em comum com o enlatado. A gestação era mais ou menos como o oceano, livre, sem nenhum pensamento e nenhuma preocupação. A rede assemelhava-se ao médico, puxando-o pelo pé. Igualmente a sardinha, somente poderia ser considerado um “cidadão” cumprindo seu dever social. O peixe só prestava quando na lata. Brotava um sorriso dos dentes amarelados, imaginando se as sardinhas teriam de usar gravatas na repartição.
Sentia uma pequena inveja do peixe, afinal, a lata não deveria ser tão quente, o termômetro da rua marcava trinta e quatro graus. Na prateleira a lata não trepidava, quem sabe um pouco no caminho até a casa do comprador, afinal, uma vida amena dividida entre prateleira e armário.
Quanto ao cheiro, neste quesito a sardinha estava empatada com ele, todavia, ela não tinha narinas, não precisava se tomar por isso. O calor amplificava o odor de humanos no ônibus. Baixinho, ficava à altura da axila das pessoas mais altas. Apenas uma hora e meia e chegara ao centro, não precisava gastar com metrô. A viagem de metrô levaria apenas trinta minutos, porém, infelizmente, era um luxo ao qual não podia se permitir. Após descer no ponto, uma caminhada de dez minutos. Outrora se divertia ouvindo música, mas fora assaltado tantas vezes que agora colocava um longo casaco (mesmo no calor infernal), desgrenhava o cabelo e escondia o celular dentro das botas.
Finalmente, chegara ao “escritório”. A velha repartição abandonada fazia muito tempo. Usava uma máquina de escrever. Era um desses raríssimos casos de funcionário público que realmente trabalhava. A lata escura, cinzenta e apertada. Uma mesa de madeira sem pintura e um armário com arquivos e pastas infinitos.
Maquinalmente, preenchia relatórios, enquanto tentava pensar em algo menos desagradável que seu ofício. Pensava já na hora de sair, parecia que havia feito aquele mesmo relatório a vida inteira, parecia que fazia dias que ali estava mediante tamanha dor que sentia por todo o corpo e pela cabeça. Passara-se cinco minutos.
Uma das coisas que mais odiava era seu vizinho, do vidro embaçado conseguia ver e ser visto pelo chefe, deveria ser uma espécie de medida restritiva, assim, nenhum dos dois poderia dormir naquele lugar. Não sentia segurança pra dormir, poderia morrer sufocado, pensava, Nem janela tinha a sala...
Se ao menos tivesse uma janela, por onde passasse de vez em quando uma bela moça com a qual pudesse sonhar. Era um jovem romântico, bondoso, inteligente e sonhador, ou seja, ia permanecer solteiro até seus últimos dias. Todo caso, houvesse uma janela poderia imaginar as belas moças em vestidos de noiva, ou mesmo dar risada de uma criança, ver um bebê... Porém, com aquelas paredes verde musgo, não conseguia nem imaginar. O tempo continuava a passar, naquele ritmo de sempre, apenas mais quinze minutos. Resolvera fumar um cigarro, o chefe havia saído e não retornaria em breve.
Fumaria escondido no banheiro. Não mais sentia ânsia de vômito e enjôo ao entrar naquele lugar, parecia nunca ter sido limpo, não entendia como poderia ser tão sujo, haja visto que ninguém o usava. Poderia afirmar isto com certeza, a sala dele ficava de frente pro banheiro, até mesmo recebia o odor, mas ele nunca via ninguém ali entrar.
Pegara um marlboro vermelho, maço, o único luxo que se permitia na vida. Sistemático, fumava cinco cigarros no trabalho, e só, uma carteira durava 4 dias. Era seu gasto mais dispendioso, contudo, raciocinava ser um lucro, pois se não fumasse, mataria-se, ou simplesmente não conseguiria mais ir ao emprego, deixaria mãe doente em casa e abandonaria tudo aos pés de si mesmo. A estratégia era muito simples, ele só poderia fumar no serviço, assim, viciado que era, ia trabalhar pra poder fumar...
Mais que um fumante, um apreciador, degustador de cigarros. Olhava a fumaça subindo, devagar... Aquele sem dúvidas era o único momento de prazer de seus dias. Divagava que o malrboro box era melhor do que o maço, achava que isso ocorria porque a caixinha fechava melhor, assim, o fumo permanecia seco mais tempo, queimando melhor.
Fim do cigarro... volta ao inferno. Suava, preenchia, suava mais. Assim passava dez, doze horas de sua vida, todos os dias. O chefe chegava à sala, pedia para ele executar alguma tarefa que não fazia a mais remota idéia de como fazer. Acreditava piamente que o chefe gastava todo seu tempo em casa, pensando em uma nova atividade diária, ou uma forma de falar que ele não compreendesse. Como não sabia o que fazer. Ficava ali, parado, esperando... O chefe voltava e ele recebia uma bronca grosseira. Era estuprado todos os dias de sua vida, ao menos moralmente... Após a bronca o patrão explicava como se fosse ele uma criança, gritando como a um criminoso. Geralmente o chefe designava-o para alguma função que não era dele, assim o patrão poderia fazer nada, naquela sala, que até uma janelinha tinha.
A janelinha. Sonho de uma vida toda... Triste sina, um dia tentou virar a mesa, de modo a poder ao menos ver um pedacinho da janela, mas o chefe não deixou, continuava seus dias com as paredes verdes, o cheiro do banheiro, reclamações e sem janelas.
Uma simples janelinha... Era seu maior sonho.
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