segunda-feira, fevereiro 19, 2007

Furtado, ou... Nem um Minuto a Mais... Parte I






Redação





Um pobre rapaz ignorante. Nós, velhacos da redação, o chamávamos Furtado, seu sobrenome. Gracejávamos todos que havia um estigma de família naquele nome. Todas as coisas boas pareciam se esvair da existência daquele pobre ajudante. Redação abafada, ninguém atrevia a tratar-se por "tu" e menos ainda pelo primeiro nome. Como dito, era auxiliar o pobre, carregava papéis, redigia documentos e cartas, trazia café, fazia nada, raras vezes escrevia uma coluna, ria das migalhas de espírito que deixávamos chegar até ele.

Porque isso? Porque queríamos. Ninguém "de fora", como o considerávamos, podia partilhar de nossas conjecturas. Por exemplo; certo dia nada havia para falarmos mal da oposição, chegou o Almeida, atrasado e sujo como sempre e perguntamos-lhe: "caríssimo Almeida, quem achas o mais feio e desagradável de nossos inimigos?". Escolheu um deputado que andava com ares de chegar a senador, de um pronto tornou-se ele nossa vítima, o coitado era um desses casos quase únicos de político honesto, mas, infelizmente – para ele – caíra nas asas do acaso e do senso estético do Almeida. Em uma semana arranjamos as mais desgraçadas mentiras para destruir o homem, corrupção, desonestidade em geral, coisas que fariam o diabo parecer inocente , e, por sugestão do Gouveia, o golpe final: uma amante. Esse refino de maldade foi apenas sadismo, queríamos ver se destronaríamos a única glória do "feioso", a de ter uma bela mulher.

Este caso bem mostra como deveríamos ser cuidadosos em relação à qualquer pessoa, mesmo nosso primeiro ajudante, ainda mais por saber que era honesto o pobre. Por vezes tinha de cobrir a coluna de algum de nós que estava "doente", decerto o verdadeiro paradeiro era alguma casa de jogo, nos braços de uma puta. Assim, Furtado mesmo quando o acaso - e a nossa preguiça – botava em suas mãos uma coluna, não era ele quem recebia os créditos. Pior foi a ocasião em que o Oliveira ficou doente e Furtado teve de fazer uma grande matéria, o menino dedicou-se dia e noite, conseguiu informações e fatos reais - o que era o mais impressionante - e acabou por desbancar uma grande trama corrupta. Pena o líder desta ser um um coitado, sem expressão alguma no partido inimigo. Se houvesse o texto caído na mão de qualquer um de nós, teríamos colocado frente à matilha algum figurão, que, no mínimo destruiríamos e bem seria capaz dele vir humilhar-se em nossa porta, dando-nos muito dinheiro para calarmos sobre o assunto e fazer a matéria cair no esquecimento, infelizmente, estávamos todos bêbados nos divertindo com bebidas e prostitutas no dia anterior à publicação.

Acontece que, como o "chefe" era um "laranja" qualquer, a oposição prontamente o destituiu, ainda mais, o Oliveira ganhou um belíssimo prêmio jornalístico, desses importantes, quem vêm recheados de dinheiro e que hoje em dia garante a tranquilidade do Oliveira no fim de seus dias em alguma praia, nunca mais voltou à redação. Furtado mais uma vez fez jus ao nome.

Na festa após a premiação um dos chefes do partido rival chegou pro Oliveira e disse: "ora caríssimo amigo", tratava-o como amigo de infância, em nosso ramo uma hora se fala que fulano vendeu a alma ao diabo, e, se fulano no dia seguinte não cumprimenta quem escreveu o artigo, logo é chamado intratável e descobre-se que não chegará a ser bom diplomata. Ao fim dessa conversa, o inimigo, “trêbado” que estava disse: "Oliveira, revela-nos quem foi que escreveu aquele artigo, bem sabemos que tuas linhas não têm aquele espírito e aquela fúria". Só havia raposas naquele antro, somente se enganaram num aspecto, explico: deram aquele prêmio por crerem ter o Oliveira descoberto um desses gênios precoces e o fosse usar frequentemente, queriam assim, com o substancial prêmio, afastar o velho, que contava nessa época mais de setenta.









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quarta-feira, fevereiro 14, 2007

Furtado, ou... Nem um Minuto a Mais... Parte II












Nós, mais que ninguém conhecíamos a capacidade do Furtado, e por isso mesmo o mantínhamos na miséria, ele podia facilmente acabar com nossos empregos, ou quem sabe o "dono" do jornal exigisse "textos tão bons quanto os de Furtado", assim, o utilizávamos quando bem entendíamos. O pobre rapaz não nasceu para a glória, é cândido, honesto e não tem ambições, desses tolos que lêem um livro antes de criticá-lo, que vão a uma peça de teatro antes de escrever qualquer linha, sequer imaginava que falar mal ou bem dependia inteiramente dos interesses em jogo. Infortunamente, somente um de nós ficava "indisposto" para fazer uma crítica quando tratava-se de algo desprezível, pois, nunca adiantaria dizer ao nosso bom selvagem-gênio se devia falar mal ou bem de qualquer coisa, o pobre até mesmo cria que nós acreditávamos na posição política do jornal, era um defensor ardoroso das idéias que o partido pregava.


Entrou no jornal aliás, pelo fanatismo que tinha pelas suas convicções, seu tio, o "Furtadão", "dono" do jornal que em verdade era nosso, o admitira quando o jovem veio pra capital terminar seus estudos, ao ter conosco pela primeira vez decidimos fazê-lo um dos nossos, era de uma beleza transcendental, e assim poderíamos aproveitarmos-nos dele nas festas junto às indefesas raparigas. Porém, em pouco tempo percebemos o quanto tinha de genial dentro de si - e o quanto era tolo - com poucos olhares decidimos mante-lo na miséria e obscuridade, como dito, para que não nos superasse, o que facilmente aconteceria se alguém o despertasse com algumas aulas da miséria humana. De certa feita estávamos em uma reunião com pessoas poderosas do partido que nosso jornal defendia, celebridades e desconhecidos querendo aparecer, toda espécie de gente fútil e maquiavélica, foi quando uma atriz iniciante, sustentada na capital pelos pais do interior, de espírito fútil e pueril, não conhecendo nada do mundo e ao mesmo tempo tendo aquela espécie de "má-índole" que parece talento, sem nada a não ser a beleza encantadora. De cabelos escuros e curtos, pele alva e sorriso largo.


Conhecida minha, perguntou de onde havia saído aquele semi-deus tão tímido e calado. Para me divertir disse que aquele haveria de ser o nosso chefe em pouco tempo, dada a geniosidade e esperteza de um lince, sem contar o fato de ser sobrinho do proprietário de nosso jornal. Os olhos da menina ambiciosa brilharam ao associar-se tamanha beleza com um futuro e inteligência brilhantes, ela foi ter com o pobre e com a desenvoltura das atrizes conseguiu fazê-lo respingar algumas frases. Ela pobre, deve ter achado que o jeito tímido e calado era planejado, algo desconfiado das pessoas. De cara achou que era um belíssimo lobo em pele de cordeiro e enamorou-se, o rapaz, que nunca antes namorara, apaixonou-se em cinco minutos, amou-a mais do que se pode imaginar...


Existem dois tipos de amores, como já o bem disse Balzac, ou amamos a beleza, as glórias, personalidade e "heroísmo", ou amamos a pessoa, gostamos por gostar, infelizmente, para a má sorte de Furtado, a atriz era possuidora primeira qualidade de amor, desses que quando se vê o herói mitificado fazendo qualquer asneira os sentimentos se esvaem como areia entre os dedos. Porém, a tola não percebia em Furtado as tolices, cria ela que tratava-se de um ator nato, que procurava enganar a todos com seu jeito boçal.


Isso somente se reforçava quando ela lia os textos dele, viveram na mais completa adoração mútua por três meses... um dia, Furtado cometeu o erro fatal. Trouxe-a na redação. A atriz, Desiré, era dessas mulheres que, uma vez alimentadas pela paixão, tornam-se muito mais belas, nela a alegria potencializou a beleza como em Furtado potencializara o Gênio. Obviamente não poderíamos deixar aquele deslocado ficar com a bela dama. O que pensava ser aquele verme para ter tal beldade aos seus pés? Após a saída deles, não foram necessários mais que dois ou três olhares para que todos na redação decidissem-se sobre o que deveria acontecer.


Novamente as trágicas asas da tragédia davam sopro à vida de Furtado, os pais de Desiré morreram, o pobre tolo não tinha como ajudá-la quanto mais sustentá-la, porém, ainda havia nela a confiança na sua paixão interesseira, mas estúpida. Pouco tempo depois, quando ela veio até a redação novamente todos os acasos estavam ao nosso lado, facilmente percebemos tudo e demos um derradeiro fim nas ilusões..






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segunda-feira, fevereiro 05, 2007

Furtado, ou... Nem um Minuto a Mais... Parte III






Furtado estava revisando os textos do Machado, os mais constantes em termos de erros. Instantes antes de ela chegar, ele saiu. Quando a vimos escapei rapidamente, os outros sabiam o que fazer. Quando começaram a gracejar sobre a estupidez de Furtado, que obviamente era falsa, ela ficou atônita, ao protestar sobre as belas colunas que ele escrevia, deram-lhe o golpe derradeiro. Depois de algumas risadas, fizeram-na crer que ele copiava os textos nossos e mostrava a ela como sendo dele. Nessa hora voltei, e ao ver sua cara de espanto, tive de empregar toda a minha arte para disfarçar as gargalhadas que ecoavam dentro de mim.


O golpe de misericórdia foi minha interpretação de culpa, dizendo-lhe que havia apenas feito uma brincadeira, que estava embriagado e que jamais suspeitara a possibilidade de ela não perceber de cara o quanto o pobre era inapto. Desesperada, Machado foi a consolar, o desgraçado, casado com uma mulher rica, sustenta até hoje Desiré, que ficou derradeiramente feliz ao descobrir o "verdadeiro" autor dos textos aos quais ela tinha dedicado tanta adoração. Furtado voltou mais tarde e trabalho normalmente, assim como todos nós. Ao perguntar do Machado, dissemos que tinha ido ajudar a irmã, que havia perdido o noivo. No dia seguinte ele não apareceu, pela primeira vez em anos. No seguinte percebemos que além de tudo era covarde demais para dar um fim à sua existência. Esse pobre coitado deveria é ser poeta, autor, pensava eu. Como a atriz estava avisada de que não deveria nos comprometer por termos "desmascarado" o "mendicante de nossos escritos", este se afeiçoou aos nossos consolos como se fôssemos todos seus pais e irmãos. Ele nunca esqueceu o ocorrido, mas, escravo que era dos costumes, continuou trabalhando normalmente, perdera sim um pouco da genialidade, mas servia perfeitamente ao nosso jornaleco e havia muito escrevia melhor que qualquer um de nós, verdadeiros donos do jornal.


Entretanto, creio que o mais interessante relato no qual o pobre honrou seu nome é o que vem a seguir. Certo dia Almeida conseguiu superar-se; elaborara uma farsa tão mal escrita, tão fantasiosa, que nessa única vez na vida envergonhou-se do próprio trabalho. Havia "inventado" uma rede de corrupção elaborada, aumentando fatos duvidosos contados por uma prostituta que ele sabia estar mentindo, afinal, todas essas mulheres parecem ter necessidade de inventar as mais variadas histórias para esconderem as próprias. A questão é que Almeida redigiu tão mal - e qualquer que lesse perceberia ser uma jocosa mentira - que decidiu fazer Furtado perder a virgindade como jornalista. Resolveu creditar o texto ao nosso herói.


Dia seguinte, houve um escândalo, conseguimos - com a ajuda da candura de nosso pobre - convencê-lo de que havíamos posto o seu nome naquela matéria porque ele não tinha experiência, enfim, éramos adorados por aquele pobre-diabo, bastaria que falássemos ser melhor assim. Entretanto, surpresa maior, o escândalo era verdadeiro, no mesmo dia, outro jornal publicara a mesma notícia com provas, a prostituta exercera bem a sua vingança. A diferença é que neste não havia os nomes citados e todos deram mais credibilidade à notícia do Furtado. Logo, planejava eu receber as honras e glórias pela "nossa descoberta" quando Furtado mesmo se encarregou, estava decidido em vir à público, a dizer quem era o verdadeiro autor daquela matéria brilhante, que faria cair tantos cânceres da nossa vida pública, ele não achava correto receber os louros por algo que não havia feito. Foi a primeira vez que vi Furtado decidido, fiquei mais do que satisfeito, porque agora, bastaria apenas tomar a glória de Almeida, que era outro néscio.


Pela segunda vez em todos aqueles anos, Furtado não aparecera no trabalho à hora marcada. Temi por isso, pois precisava de mais tempo pra arquitetar tudo e roubar a glória aos dois inaptos. Sentei em minha mesa, saboreei meu cigarro com café e peguei o jornal concorrente, o qual representava a minha visão política.


Levei um choque, a notícia de capa era: “Morre um Mártir da liberdade!”. Alguém havia dado seis tiros à queima roupa no “jovem brilhante repórter” que havia feito a matéria que desbancaria grande parte da podridão da nossa vida pública. O poeta havia morrido, sem nunca ter sequer uma glória de verdade, nunca permitiram, o visionário morreu, sem nunca ter alçado vôo, o romântico morreu, sem nunca ter recebido um verdadeiro amor, desses que nos fazem sorrir à toa quando andamos pela rua. Haviam furtado a vida do Furtado...







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