
do Lat. distantia
s. f.,
espaço entre duas pessoas ou coisas"
Sentado, à espera de algum acontecimento, sentia-se como Cristo na cruz. A desesperança era maior que a do messias bradando ter sido abandonado. Sentia-se um espírito, olhando os vivos, diferentes dele. Sentia ódio de si mesmo por estar naquela situação, sabia, afinal, ser sua culpa. Culpava o acaso e o maldito destino de ter nascido. Quisera que seu pai tivesse gozado na boca de sua mãe, assim iria ser apenas uma semente diluída num estômago qualquer.
Pessoas mais velhas ao seu redor. Sentia certa inveja delas. Haviam percorrido a estrada que ele mesmo atravessaria, pareciam felizes. Sorrisos enrugados, gargalhadas sonoras. Afora o fato de parecer que faziam isso apenas para caçoar de sua expressão insone, conversaria com eles. Chovia. Cada pingo martelando na sua cabeça. Cada pingo lembrando de dias passados. Pensava que os velhos pareciam felizes por não possuir mais paixões, as vontades, déspotas de nossa insaciedade, que tanto nos faz frustrar. Trazendo o sentimento de impossibilidade da felicidade. Na velhice isso parece padecer, adormecer com o resto das forças.
Quem sabe tratamento de choque não surtisse esse efeito. Esfriava. Sempre que isso ocorria, relembrava fatos do passado, pessoas. Fazia dois anos que não via seu amor, ela ficara na cidade antiga, com os hábitos, ocasiões e tudo mais que nos prende às vezes por décadas num mesmo lugar. Dois anos e a chuva permanecia inalterada neste lugar, parecia que sempre chovia da mesma forma, os mesmos sons, os mesmos cheiros. Poças de água cinzenta e marrom nos mesmos lugares. Tudo igual. Ouvia a mesma música, que eles haviam combinado escutar enquanto dirigiam sem rumo, por aquela mesma chuva.
Aquela música que inspirava ódio nele, vontade de dançar nela. Que fazia ele se sentir revigorado, que acabava com ela. Tão iguais. Os únicos no mundo a se entender? Porque havia sido burro a ponto de optar pela segurança? Um casamento estável vale mais que uma grande paixão?
Tentava aceitar uma ordem de idéias melhores. Aquele assunto já havia sido discutido consigo mesmo infinitas vezes. Não poderia fazer mais do que se lamentar. Ficou muito tempo nessa espécie de exercício de auto-sobrevivência. Consolava-se de um pensamento com outro, este desenganado aquele. Aquele desenganando o outro. Brincava com a sua própria mente. Havia dias que procurava um sem resposta. Mas nunca encontrava.
As pessoas ao seu redor pareciam felizes. Não sabia como, havia chegado até uma lanchonete, perto de onde estava. Não percebia mais as causalidades da vida. Não percebia as simples ações que cometia. Era um errante guiado de forma autônoma por si mesmo. Não se permitia julgar as pessoas pelos risos em uma mesa de bar, mas parecia estar entre gente alegre, isso o irritava. Essas ocasiões sempre avivam fatos passados alegres, a afeição dos outros duplica a própria, para seu consolo, julgava serem tolos tristes no lugar.
Não me parece que explique bem a situação deste ser àquele lugar, àquela situação, porém, ainda é propício para o fogo que vai ser o destino final destas linhas, e não só delas. Lembrava-se ainda dos velhos sorridentes de pouco tempo atrás, a velhice, apesar da falta de paixões, ou talvez por isso mesmo, parecia ser um fardo, ofício cansativo.
Não há cabimento no descrever o resto dos pensamentos contraditórios daquele ser, leve o diabo tais pensamentos. Voltavam os velhos, como, apesar das misérias que haviam assistido conseguiam ao menos fingir alegria? Olhava para seus pálidos dedos. Gostava do modo como as mangas cobriam metade de sua mão. Lembrava da sua última alegria. A última vez que se viram. Ela não havia ainda falado aquelas três palavras tão simples, mas que deixam qualquer ser ébrio e com falta de ar. Nunca chegou a dizer, porém, todas as que empregava vinham a dar nelas, todos os olhares na mesma direção.
Sobrevinham as lágrimas. Olhava para si no espelho, sempre tivera tédio dos fracos. Contraditório que era, não podia deixar de ser diferente.
...
Obrigado à belíssima senhorita Mayara Santiago pela foto, que eu coloquei aqui sem autorização.
;*
3 comentários:
Vai tu se foder...
tédio dos fracos.
seriamos todos fracos?
enfim
qd olhamos os velhos felizes e acabados como entende-los.....
depois de tanto sofrimento... acho que acaba as preocupaçoes....
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