
Furtado estava revisando os textos do Machado, os mais constantes em termos de erros. Instantes antes de ela chegar, ele saiu. Quando a vimos escapei rapidamente, os outros sabiam o que fazer. Quando começaram a gracejar sobre a estupidez de Furtado, que obviamente era falsa, ela ficou atônita, ao protestar sobre as belas colunas que ele escrevia, deram-lhe o golpe derradeiro. Depois de algumas risadas, fizeram-na crer que ele copiava os textos nossos e mostrava a ela como sendo dele. Nessa hora voltei, e ao ver sua cara de espanto, tive de empregar toda a minha arte para disfarçar as gargalhadas que ecoavam dentro de mim.
O golpe de misericórdia foi minha interpretação de culpa, dizendo-lhe que havia apenas feito uma brincadeira, que estava embriagado e que jamais suspeitara a possibilidade de ela não perceber de cara o quanto o pobre era inapto. Desesperada, Machado foi a consolar, o desgraçado, casado com uma mulher rica, sustenta até hoje Desiré, que ficou derradeiramente feliz ao descobrir o "verdadeiro" autor dos textos aos quais ela tinha dedicado tanta adoração. Furtado voltou mais tarde e trabalho normalmente, assim como todos nós. Ao perguntar do Machado, dissemos que tinha ido ajudar a irmã, que havia perdido o noivo. No dia seguinte ele não apareceu, pela primeira vez em anos. No seguinte percebemos que além de tudo era covarde demais para dar um fim à sua existência. Esse pobre coitado deveria é ser poeta, autor, pensava eu. Como a atriz estava avisada de que não deveria nos comprometer por termos "desmascarado" o "mendicante de nossos escritos", este se afeiçoou aos nossos consolos como se fôssemos todos seus pais e irmãos. Ele nunca esqueceu o ocorrido, mas, escravo que era dos costumes, continuou trabalhando normalmente, perdera sim um pouco da genialidade, mas servia perfeitamente ao nosso jornaleco e havia muito escrevia melhor que qualquer um de nós, verdadeiros donos do jornal.
Entretanto, creio que o mais interessante relato no qual o pobre honrou seu nome é o que vem a seguir. Certo dia Almeida conseguiu superar-se; elaborara uma farsa tão mal escrita, tão fantasiosa, que nessa única vez na vida envergonhou-se do próprio trabalho. Havia "inventado" uma rede de corrupção elaborada, aumentando fatos duvidosos contados por uma prostituta que ele sabia estar mentindo, afinal, todas essas mulheres parecem ter necessidade de inventar as mais variadas histórias para esconderem as próprias. A questão é que Almeida redigiu tão mal - e qualquer que lesse perceberia ser uma jocosa mentira - que decidiu fazer Furtado perder a virgindade como jornalista. Resolveu creditar o texto ao nosso herói.
Dia seguinte, houve um escândalo, conseguimos - com a ajuda da candura de nosso pobre - convencê-lo de que havíamos posto o seu nome naquela matéria porque ele não tinha experiência, enfim, éramos adorados por aquele pobre-diabo, bastaria que falássemos ser melhor assim. Entretanto, surpresa maior, o escândalo era verdadeiro, no mesmo dia, outro jornal publicara a mesma notícia com provas, a prostituta exercera bem a sua vingança. A diferença é que neste não havia os nomes citados e todos deram mais credibilidade à notícia do Furtado. Logo, planejava eu receber as honras e glórias pela "nossa descoberta" quando Furtado mesmo se encarregou, estava decidido em vir à público, a dizer quem era o verdadeiro autor daquela matéria brilhante, que faria cair tantos cânceres da nossa vida pública, ele não achava correto receber os louros por algo que não havia feito. Foi a primeira vez que vi Furtado decidido, fiquei mais do que satisfeito, porque agora, bastaria apenas tomar a glória de Almeida, que era outro néscio.
Pela segunda vez em todos aqueles anos, Furtado não aparecera no trabalho à hora marcada. Temi por isso, pois precisava de mais tempo pra arquitetar tudo e roubar a glória aos dois inaptos. Sentei em minha mesa, saboreei meu cigarro com café e peguei o jornal concorrente, o qual representava a minha visão política.
Levei um choque, a notícia de capa era: “Morre um Mártir da liberdade!”. Alguém havia dado seis tiros à queima roupa no “jovem brilhante repórter” que havia feito a matéria que desbancaria grande parte da podridão da nossa vida pública. O poeta havia morrido, sem nunca ter sequer uma glória de verdade, nunca permitiram, o visionário morreu, sem nunca ter alçado vôo, o romântico morreu, sem nunca ter recebido um verdadeiro amor, desses que nos fazem sorrir à toa quando andamos pela rua. Haviam furtado a vida do Furtado...
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