
Nós, mais que ninguém conhecíamos a capacidade do Furtado, e por isso mesmo o mantínhamos na miséria, ele podia facilmente acabar com nossos empregos, ou quem sabe o "dono" do jornal exigisse "textos tão bons quanto os de Furtado", assim, o utilizávamos quando bem entendíamos. O pobre rapaz não nasceu para a glória, é cândido, honesto e não tem ambições, desses tolos que lêem um livro antes de criticá-lo, que vão a uma peça de teatro antes de escrever qualquer linha, sequer imaginava que falar mal ou bem dependia inteiramente dos interesses em jogo. Infortunamente, somente um de nós ficava "indisposto" para fazer uma crítica quando tratava-se de algo desprezível, pois, nunca adiantaria dizer ao nosso bom selvagem-gênio se devia falar mal ou bem de qualquer coisa, o pobre até mesmo cria que nós acreditávamos na posição política do jornal, era um defensor ardoroso das idéias que o partido pregava.
Entrou no jornal aliás, pelo fanatismo que tinha pelas suas convicções, seu tio, o "Furtadão", "dono" do jornal que em verdade era nosso, o admitira quando o jovem veio pra capital terminar seus estudos, ao ter conosco pela primeira vez decidimos fazê-lo um dos nossos, era de uma beleza transcendental, e assim poderíamos aproveitarmos-nos dele nas festas junto às indefesas raparigas. Porém, em pouco tempo percebemos o quanto tinha de genial dentro de si - e o quanto era tolo - com poucos olhares decidimos mante-lo na miséria e obscuridade, como dito, para que não nos superasse, o que facilmente aconteceria se alguém o despertasse com algumas aulas da miséria humana. De certa feita estávamos em uma reunião com pessoas poderosas do partido que nosso jornal defendia, celebridades e desconhecidos querendo aparecer, toda espécie de gente fútil e maquiavélica, foi quando uma atriz iniciante, sustentada na capital pelos pais do interior, de espírito fútil e pueril, não conhecendo nada do mundo e ao mesmo tempo tendo aquela espécie de "má-índole" que parece talento, sem nada a não ser a beleza encantadora. De cabelos escuros e curtos, pele alva e sorriso largo.
Conhecida minha, perguntou de onde havia saído aquele semi-deus tão tímido e calado. Para me divertir disse que aquele haveria de ser o nosso chefe em pouco tempo, dada a geniosidade e esperteza de um lince, sem contar o fato de ser sobrinho do proprietário de nosso jornal. Os olhos da menina ambiciosa brilharam ao associar-se tamanha beleza com um futuro e inteligência brilhantes, ela foi ter com o pobre e com a desenvoltura das atrizes conseguiu fazê-lo respingar algumas frases. Ela pobre, deve ter achado que o jeito tímido e calado era planejado, algo desconfiado das pessoas. De cara achou que era um belíssimo lobo em pele de cordeiro e enamorou-se, o rapaz, que nunca antes namorara, apaixonou-se em cinco minutos, amou-a mais do que se pode imaginar...
Existem dois tipos de amores, como já o bem disse Balzac, ou amamos a beleza, as glórias, personalidade e "heroísmo", ou amamos a pessoa, gostamos por gostar, infelizmente, para a má sorte de Furtado, a atriz era possuidora primeira qualidade de amor, desses que quando se vê o herói mitificado fazendo qualquer asneira os sentimentos se esvaem como areia entre os dedos. Porém, a tola não percebia em Furtado as tolices, cria ela que tratava-se de um ator nato, que procurava enganar a todos com seu jeito boçal.
Isso somente se reforçava quando ela lia os textos dele, viveram na mais completa adoração mútua por três meses... um dia, Furtado cometeu o erro fatal. Trouxe-a na redação. A atriz, Desiré, era dessas mulheres que, uma vez alimentadas pela paixão, tornam-se muito mais belas, nela a alegria potencializou a beleza como em Furtado potencializara o Gênio. Obviamente não poderíamos deixar aquele deslocado ficar com a bela dama. O que pensava ser aquele verme para ter tal beldade aos seus pés? Após a saída deles, não foram necessários mais que dois ou três olhares para que todos na redação decidissem-se sobre o que deveria acontecer.
Novamente as trágicas asas da tragédia davam sopro à vida de Furtado, os pais de Desiré morreram, o pobre tolo não tinha como ajudá-la quanto mais sustentá-la, porém, ainda havia nela a confiança na sua paixão interesseira, mas estúpida. Pouco tempo depois, quando ela veio até a redação novamente todos os acasos estavam ao nosso lado, facilmente percebemos tudo e demos um derradeiro fim nas ilusões..
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