terça-feira, agosto 29, 2006

Desespero... Parte IV


Manual Chair”



















A conversa durou muito menos do que pretendia. A mãe fora dormir, no horário, como sempre. Naquela noite pensou como aquela mulher era forte, decidida, completamente diferente de todas as que conhecera anteriormente. A força que emanava era algo quase palpável. Ao longo dos dias, voltara naquela mesma sala, descobriu mais, ela ia para o quarto e lia até tarde. Tinha uma vasta biblioteca. Dizia que podia se dar ao luxo, afinal, ela quem sustentava a casa toda.

Ela lhe emprestara seus livros, agora podia novamente ter amigos, novos, muito mais refinados que os seus. Voltara a escrever. Apenas quem não gostou muito disso foi a sobrinha dela. Afinal, escrevendo, o poeta não poderia mais acompanhá-la nas festas. Até a freqüência de seus encontros sexuais diminuíra muito. Na verdade ele se desinteressava dela cada vez mais. Estava interessando-se pela mãe. A conversa deles era divertida, com certeza fazia inveja ao silêncio sepulcral da casa.

As lições do menino continuavam. O garoto cada vez mais abandonava a timidez, sempre abraçava o poeta e agradecia as lições. Certa vez, com lágrimas aos olhos. Conhecera uma pessoa de espírito, as quais sonhara que existiam na capital, mas que ainda não tivera acesso. Parecia que a atmosfera de seu mundo melhorara. Seu olhar de poeta assistia um belo por do sol, pensando que devia ser assim por causa dos saberes acumulados naquela cidade. Nem sequer imaginava que haviam acontecido no passado, cenas até mais bonitas que esta, e que, os seres primitivos de onde viera não acumulavam muitos saberes.

Olhar de apaixonado. A cumplicidade entre ele e a dona da casa era latente. Os sorrisos denotavam um amor que nunca conheceram. Ele não tinha coragem de dizer nada. Sempre que entravam em assuntos desta feita sentimental, ela sabiamente mudava o rumo das conversas. No íntimo, ela queria e ia fazer algo quanto a isso. Entretanto, para a infelicidade dela. Certo dia, ao voltar mais cedo do trabalho. Decidida a entrar sorrateiramente no quarto do seu poeta e beijá-lo até se cansar. Ao aproximar-se da porta, escutou os dois ninfetos. Petrificou-se. Chegou a sofrer um pouco, mas se resignara aos sofrimentos havia muito. Já havia sofrido demais para que uma simples troca pudesse deixá-la triste.

Decidira, assim que o poeta arrumasse um emprego, casaria os dois ninfos, quem sabe pudesse tirar a menina daquele antro de insanidades. As lágrimas corriam pelo seu rosto. Já vinha imaginando a alguns anos que não seria merecedora de felicidade. Não era amiga da fortuna. Mal poderia imaginar a cena que se passava no quarto de cima. O poeta sentia-se como se apodrecesse em vida, sentia seu corpo envelhecendo, muito mais do que o do seu amigo, sentia náusea, acreditava estar errando muito nas suas incursões ao quarto da menina.

O poeta abandonava a infante em prol do amor que sentia pela tia desta. Achava-se assim um rapaz puro, pensava ter conhecido a mais bela flor do mais puro jardim, sem perceber que o jardim era de estrume. Quando a ninfeta limpava as suas lágrimas e procurava se recompor, escutaram dois tiros, saíram do quarto, gritos e mais dois estampidos. Desceram juntos, assustados, sem pensar no que poderia estar acontecendo. Ela tentando achar a mão dele. Ele foi à frente. Chegando à sala, uma cena estarrecedora. O marido de seu novo amor havia atirado no garotinho, na avó e no casal irmão de sua mulher. Esta, a dona da casa. Parada perplexa, sem esboçar reação. Com os olhos arregalados.

O homem da cadeira de rodas, ainda silencioso. Olhou para a sobrinha e atirou, não houve tempo para nada. Ele gritou: não se mova! Seu pervertido imundo. Você acha que eu não sei das suas safadezas? Como teve coragem. Essa criança era minha última esperança para acabar com a maldição dessa casa! A única que poderia sair daqui ilesa, sem nenhuma tragédia. E você a corrompeu.

Como pôde fazer isso com meu garotinho? Meu sobrinho querido? Perguntava atônito. Nessa hora o espanto veio à face do jovem autor, não compreendera o que ocorria. O pai começou a chorar. Oquê? Pensava que por acaso teria a vileza de cometer um atentado contra o infante? Uma alma um pouco mais angustiada e apática teria rido da situação. A sobrinha, que havia levado um tiro na perna disse aos gritos chorando: “ele estava comigo”. E levou outro tiro, seguido do tiro no poeta, vários tiros, todos no rosto. Olhou para a esposa, que derramava lágrimas enquanto olhava a cena.

Querida - dizia o marido na cadeira de rodas – agora você pode ser feliz. Ter o que sempre lhe foi negado graças ao meu problema e às doenças dessa casa. Quero que você bote fogo nela. Você vai ficar com bastante dinheiro do meu seguro. Jamais imaginaram que um aleijado fizesse isso. Não tem no contrato. Mas, que cara é essa? Gritava agora. Acabei com os parasitas de sua vida e vou acabar comigo mesmo. A esposa observava os corpos no chão. O do poeta e de sua filha. Ao perceber isso, causou estranheza no marido. Este pervertido acabou sendo um bem, me fez tomar a resolução que mudará a sua vida querida. Esta é a maior prova de que eu te amo.

E atirou contra a própria cabeça.

A esposa, só então se moveu, levantou da cadeira. Tropeçando em corpos, dirigiu-se até o corpo sangrento do marido. Juntou a arma do chão. Enquanto olhava a massa disforme em que havia se transformado o rosto do poeta que tanto amara teve uma idéia. Deu alguns passos, abaixou-se e beijou o amálgama de carne e sangue em que se transformara o rosto de seu amor. Ficou muito tempo chorando, praguejando aos céus. Mas feliz por ter seu amado, ao menos uma vez. Apontou a arma contra a cabeça. Puxou o gatilho e ouviu apenas um estalido seco. Haviam acabado as balas. Tentou novamente, até desabar.

Depois daquele incidente, de fato ganhara muito dinheiro. Fora um pouco feliz. Mas sempre lembrava daquele que nunca iria conseguir abandonar.

Quanto ao poeta, foi melhor assim para ele, não teria dinheiro para continuar mais nem um mês mesmo.











...
PS. Esta é uma versão beta, estava ficando muito grande o conto e eu me cansei. Qualquer dia desses eu faço o upgrade.

2 comentários:

Anônimo disse...

Sei que merecia um comentário maior do que "gostei do seu conto". Mas realmente isso é sentido de coração. Gostei do conto e acho que os leitores merecem cada gota do seu esforço. Agradeço sua dedicação e quero incentivá-lo a dar o "up-grade". Os leitores merecem.

trashic disse...

querido eu quero ler a versão original.... enfim.... a historia teve um triunfal.... e o bom de suas historia eh q naum acontece o obvio mais sim o inesperado....