
“A man's character is his fate"
O marido desta, nunca lhe tinha escutado a voz, passava o dia inteiro no quarto, saía somente nas horas das refeições e nunca dirigia a palavra a ninguém. Residia numa cadeira de rodas. Depois de tempos, o escritor ficou sabendo que houvera um acidente. O marido estava recém casado, com um bom emprego, era esportista. Dos bons, chegara a ler sobre o caso dele nos almanaques de esporte. Porém, em uma viagem com a delegação do país houve um acidente onde morreram vários atletas. Ele havia falecido apenas espiritualmente. Mesmo assim a esposa nunca quis largá-lo.
O outro casal era – não fosse trágico - cômico. Tratava-se do irmão mais velho da dona da casa. A primeira namorada que teve era sua esposa. Morava perto da casa dele. Houve problemas financeiros. Teria de ir embora. Para não perder a namorada, chamou-a para morar na casa da mãe, esta mesma casa agora alugada aos poucos. Acabaram se casando, tiveram filhos, sem nem perceber ou planejar qualquer coisa. Desperdiçara a vida como quem joga jornal velho fora.
Ele trabalhava ali, no porão da casa, confeccionava de forma artesanal acessórios para sex-shop. Havia de tudo, de certa feita o poeta fora convidado a apreciar as obras de arte e tortura do artesão. Não havia como deixar de rir e ficar chocado, como um senhor de meia idade, resignado com a vida, pai de dois filhos, conseguia imaginar e construir aqueles artefatos bizarros dia após dia? Depois o irmão foi se revelando um pouco aquém da imagem de doçura que sua aparência revelava. Era jogador compulsivo, não contribuía em nada na casa. Nem para os filhos, nunca comprara um presente de natal.
A mulher do irmão era um capítulo a parte. Obesa, imensa, grande, gorda. Nunca conversava com ninguém, nem mesmo com o marido. O silêncio era sepulcral. Nunca havia trabalhado. Creio que não soubesse nem ler. Não fossem as ocasionais discussões com os filhos pensar-se-ia que era muda.
Os filhos. Além da ninfeta que me sorriu aquele dia – e nunca mais, havia um pequeno garoto. O menino que atendeu a porta aquele dia. Deveria ter uns dez anos ou coisa assim. Era muito tímido, mas com o tempo tornara-se meu amigo. Eu o estava ensinando a ler. Tinha modos tão delicados que poderia se passar por uma menininha da mesma idade. Fora meu primeiro amigo na selva nova.
A irmã consumia o poeta. Não havia escrito mais uma linha sequer. Sempre que pensava em alguma história, assunto ou o que fosse voltava aquele sorriso em sua memória. As pessoas da casa começavam a se perguntar qual fora o intento dele vir do interior. Haja vista que nunca fazia nada. Ficava sempre no quarto e descia apenas para as lições do menino e para comer. Mas o bloqueio era invencível... Aquelas pernas, aqueles seios, lhe traziam à memória todo tipo de perversão. À noite não conseguia dormir, na esperança que ela abrisse a porta do quarto e realizasse seus sonhos adolescentes.
Sua angústia não durou muito tempo. Certo dia, depois do almoço, ele subiu para, como sempre, fazer nada e se martirizar no quarto. Os tios, por milagre do destino, tiveram de sair. Haveria um show do padre cantor da cidade. Não poderiam perder. Era o único passeio mensal. Levaram o filho.
No andar de baixo. Inválidos. Quando entrou no quarto ela estava lá. Olhando suas coisas. Pareceu assustada quando o viu. Usava um pequeno pijama e uma blusinha, adequada ao calor infernal que fazia. Ressaltava as suas belas formas. Ele não disse palavra. Apenas um oi. Deu mais um sorriso e o beijou. Não se preocuparam nem em fechar a porta. Apenas não poderiam fazer barulho. Não fizeram. Depois do ato conversaram como se fossem velhos amigos, ela, deitada no peito dele. Sentiam-se felizes. Quem sabe, foi a última alegria de cada um. Não se fazem momentos como este na vida mais de duas vezes.
Contaram-se todos os segredos. Viraram cúmplices. Era uma garota de programa. Saía de casa quase todos os dias à noite. Descia habilmente por uma calha. Usava drogas. Depois de uns dias, começou a acompanhá-la, freqüentava bares, pocilgas e todo antro de perversões. Começava a entender a preocupação de todos ao saber que iria para a capital. Não tinha dinheiro. Não tinha emprego. Não conseguira produzir nada naquele tempo. Mas, a lembrança das pessoas que duvidaram de suas perspectivas, a lembrança de ver seu primeiro amor naquele carro com aquele imbecil. Todas estas coisas o faziam sentir essa espécie de ódio e desejo de vingança que impulsionam tantas e tantas vidas. Ressentimento.
Havia ainda mais um morador na casa. Uma moradora. Era a mãe da dona da casa. Quando conheceu esta, não se surpreendeu com a história trágica. Poderia ser de outra forma naquele lugar provido de tantos anátemas? Uma senhora idosa. Raros cabelos brancos na cabeça. Aspecto mórbido, faltava um tanto da penugem calva. Revelando assim uma cicatriz imensa. Pequenos olhos, em geral fechados, cerrados numa expressão de conformidade com a dor. Inteira parecia exalar angústia. Não devia fazer a menor idéia do porque de sua existência. Não que nós ou as pessoas daquela casa soubéssemos, entretanto, a senhora nem se dava conta da mesma.
A cicatriz era oriunda de uma operação para a retirada de um tumor no cérebro. Durante a vida toda agüentara constantes enxaquecas sem nunca comentar ou reclamar a ninguém. Podia-se perceber que a força da dona da casa viera daquela mulher, infelizmente a sorte não sorriu pra ela. Agora não passava de um vegetal inerte que inconscientemente todos queriam ver morta.
O destino do poeta selou-se quando a menina tivera de sair mais cedo. Tinha um cliente e ele resolveu assistir às futilidades junto com a dona da casa. Começaram a conversar, foi neste dia que descobriu os detalhes relatados acima. Segurou-se a sua alma ingênua para não verter lágrimas ante cada história, para não rir da profissão do irmão dela. Obviamente, não sabia nada sobre a profissão da filha nem suas atividades.
...
Um comentário:
uma casa problematica... perfeita para um amor problematico e doentio...
o tal escritor tbm é um pouco doentio.... e deprimente...
posso lhe contar um segredo: essa historia foi a minha predileta....
Postar um comentário