Lembrava de velhos tempos. Como uma música podia recriar todo aquele mundo que passara havia tanto? A paisagem, os cheiros e sentimentos? Talvez fosse devido ao frio, este se assemelhava muito ao daquele inverno de dois anos atrás. Ou estar na frente de um computador, num alto apartamento com pequenas linhas de vento lhe cravejando o rosto. Talvez o fato de estar com uma roupa confortável, quente e grossa, usando pantufas, daquelas de bichinho, que fazia tanta questão.
Todavia, não mais era o rapaz de dois anos atrás, as dores agora eram muito maiores, tinha sofrido demais, não sabia ser merecedor de tanto. Mesmo assim, sofreu e quem sabe tinha aprendido alguma coisa com aqueles passos em direção das profundezas.
Chorava, as lágrimas vinham à sua face em cada nota que o vocalista proferia. Era o mesmo disco que escutara anos atrás, porém, com outro vocalista, um bootleg, um pirata de luxo, composto de sobras de estúdio. Ele ouvira falar por tanto tempo daquele álbum, e agora ali estava, no seu computador. As pequenas caixinhas fanhosas tocando. O que de forma alguma atrapalhava a qualidade da música.
Lembrava daqueles tempos de nenhuma preocupação. Nenhuma tristeza. Uma época onde havia abandonado sem mais nem menos duas bandas nas quais tocara. Parara de fazer qualquer coisa que fosse importante, férias da faculdade, férias da vida. Não queria pensar nem fazer nada.
Tempos nos quais suas maiores decisões eram se ia jogar sinuca com os amigos, se os chamaria pra ir para casa, se a encontraria, e como seria. A maravilhosa mulher que destruiu a sua vida. Linda, meiga. Completa, perfeita pra ele.
Havia um pequeno obstáculo entre eles, o fato de ser casado, com certeza isso poderia impedir muitas coisas, levando em conta a então mentalidade honesta e puritana do rapaz.
Uma menina absolutamente encantadora. Quando a conheceu sentiu muito mais do que o simples carisma que algumas pessoas exercem sobre as outras, havia um algo mais indefinível que permeava as palavras daquela menina... Passou-se pouco e ser atraído para ela era natural como respirar.
Depois as surpresas, qualidades...
Conversavam sobre todos os assuntos, sempre com humor e inteligência. Mesmo estando acostumado ao vício dos cafés e cigarros, não conseguia escapar dessa nova obsessão que tomava conta... Ou seja, trocar algumas palavras que fossem todo dia. Necessitava ser o motivo de sorriso dela.
Acontece que depois de tudo isso, um dia ela chegou triste, percebi que além daquela força imensa, havia a fragilidade... Escondida bem no fundo daquela personalidade marcante... Senti vontade de abraçar e protegê-la, parecia que a minha vida só teria sentido fazendo com que aquele rosto retornasse ao seu posto dândi de alegrias e risadas... As qualidades se completavam, um lado "áspero" numa menina absolutamente doce... Sensibilidade numa menina tão forte...
Estava completamente apaixonado. Não demorou mais do que o previsto para amá-la com uma intensidade gritante. Não podia considerar a sua vida sem ela e fazia planos, besteiras. As pecuinhas que o amor nos obriga a fazer.
Continua...
Agradecimentos à Luiza Helena Bordotti Dias pela incrível foto.

Um comentário:
uma tragedia perfeita
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