Vade, sume tibi uxorem fornicationum, et fac tibi filios fornicationum.
Lia a frase. Não entendia. Anda mal nosso latim, não é mesmo? Agradeçamos Voltaire que nos esclarece com a tradução, não deixa-nos à luz da ignorância. Poucas coisas são piores – tratando-se de livros - do que quando pegamos um exemplar cheio de citações em língua desconhecida. De pronto abandono a leitura. Penso: "não foi feito pra mim, o autor queria os deste país mais do que a mim, que assim seja". Um leitor a menos e um espírito feliz a menos. Quem sabe dois, o meu e o dele, entretanto, é um risco em que incorremos,
O escrito em latim: trata-se de Deus falando, ao menos a bíblia diz que é o supremo. Este, dirigindo-se a seu filho querido, Oséias: “ordeno-te: pega uma puta e vá ter filhos da puta!”. Esta passagem demonstra um pouco do que eu chamaria de “o humor de Deus”, afinal, deve ser o sumo-humor, o supremo de todas as piadas mais insanamente indecentes. Deus pode fazer uma pessoa morrer de rir literalmente, enfim, quanta irrelevância.
Acendia mais um cigarro, infelizmente, o último, se quisesse mais teria de gastar seus últimos centavos. Comer ou fumar? Ficava com a segunda opção. Sempre. Olhava para os lados, aquelas paredes verdes o incomodavam, aquele sol o deixava com dor de cabeça, a música... Sempre voltando à cabeça... O sorriso. Tentava pensar em algo sério, distrair-se do pensamento habitual, mas a obsessão voltava sempre. Tudo parecia tão irrelevante que simplesmente não merecia ser pensado. Irrelevante demais.
Distração. Euforia ao contrário, angústia extenuante. Engraçado também era Jesus, mais do que a ironia de ter sido deixado ao léu por Deus era este expulsando demônios. Ora, melhor ainda de se saber é que este mesmo Jesus convinha que os judeus tivessem o famoso poder de exorcismo. Nada mais fácil para o diabo - o mesmo que tentou Jesus - do que entrar no corpo de algum mendicante mediante o pagamento de alguns trocados ou pães. Sem muito trabalho – talvez um pouco de atuação apenas – um judeu poderia expulsar dez diabos por dia.
Todavia, faz-se digno de nota que os diabos têm muito mau gosto ou algo assim, notaram já a predileção pelos mendicantes? Nenhum governador, nenhum senador ou mesmo profeta é invadido por esses possuidores.
Vende-se barato qualquer dogma, sempre foi assim, estranho seria um mundo onde fossem cobradas taxas exorbitantes para se ter acesso à “verdade” divina. Quem sabe, como as coisas vão de mal à pior, em pouco tempo para se ser adepto de algum culto tenhamos de pagar taxas cada vez maiores, felizmente o dízimo já nos basta para uma overdose de fé. Cultos maravilhosamente preparados, reuniões, missas e toda a parafernália por uma parcela diminuta de seus salário. Muito obrigado senhor.
Novamente irrelevância, pensava: como pôde permitir tantas coisas? O preço da justiça vale mesmo tanto sofrimento? Onde o mal principiou? Qual o princípio? Se todas as coisas vêm de Deus, ele foi autor do primeiro mal, a justiça deveria ter sido destinada a ele somente e pronto, assim, todas as coisas ruins que ocorrem desde sempre, tem na sua origem a dívida que o criador tem com todos nós. Ele é amor? Pois nem poderia deixar de ser.
Lembrava de todos seus entes queridos, todas as pessoas que importavam, as via como pedaços de carne podre, pensava como ficariam depois de carbonizadas, após abertas de dentro pra fora. Via sua mãe decepada, seu pai eviscerado, sua amada... O sentimento não deixava imaginar nada além de um rosto pálido... O que o levava às lágrimas, pensava na futilidade, irrelevância, porque tudo tão sem sentido? Não havia porque, será que isso se devia ao desequilibrio gerado pela dívida divina? Sofria, não havia como medir se mais ou menos que as outras pessoas, sofria. Lembrava, e a mistura da falta de razão da humanidade assim como da vida, somada ao fato de Deus não parecer mais que a origem do mal, o desesperançava, quisera nesse momento, mais do que em muitos de real desespero, morrer. Ter coragem para terminar com aquela existência inútil, enfadonha e solitária.
Via a si mesmo, aquele corredor verde escuro e vazio, teto cinza, com o chão velho acabado, cheirando a mofo. Havia perdido tudo, as coisas que importavam não estavam mais aqui, ela deveria estar dormindo, sem nem ao menos saber que ele nunca mais descansou. Os planos deram errado. Tentou, foi a única vez na vida que fez alguma coisa por si, pensando em outrem. Falhara. Perdera mais do que no início. Tudo não passava de material. Esquecera-se do espírito.
A música voltava à sua mente, aquele piano, aquele momento, aquilo o pertencia, haveria pra sempre na sua mente, aquele instante de felicidade, que nunca se apagaria, uma coisa boba, no meio da rua, o olhar dela, com os braços pra trás e o sorriso, ele em cima da calçada e ela na rua, na frente do prédio. Ninguém mais no mundo deve lembrar daquele momento. Aquele olhar, a face contra o sol, os olhos, o olhar... A maldita melodia daquele instante, aquela roupa que ela usava, tão parecida com ela mesma. Tão perfeito. Olha para o teto, clama, grita em voz alta, “Deus! Se você existe, deixa-me preso pra sempre naquele momento, ali eu conheci a felicidade”.
Silêncio.
A música para, o momento se esvaíra. Andava um passo... Sua mãe vinha chorando, perguntando por que tivera aquela vida de dor, mais um passo, seu pai, olhava com cara triste e perguntava: porque tivera de ser a causa da infelicidade de si e de outros? Via sua amada... Ela o olhava, sem dizer palavra, simplesmente dava as costas a ele. Todas as pessoas que havia conhecido em sua vida, gritando que ele deveria ter força, porém todas choravam. Fim do corredor. A porta que dá acesso ao terraço do prédio. Nunca havia chegado tão perto.
Via o chão, muitos metros embaixo, pensava que um passo seria necessário. Nunca mais sofreria por nenhum motivo. Nunca mais seria o motivo de decepção pra outras pessoas, nunca mais poderia machucar nem ferir ninguém. Nem mesmo fazer outros serem culpados de feri-lo. O mais importante: não mais veria uma lágrima dela... Ela o olha, percebe que é tarde demais, solta uma lágrima, você percebe que nunca fez ninguém feliz, ninguém tem porque agradecer a sua estúpida existência.
Esse é o momento mágico, de clarificação. Percebe que, na verdade, é justiça o que agora faz, deve acabar consigo mesmo como forma de expiar os pecados de si e as dores cometidas a outros. Não um pecado e sim a redenção máxima, isso é o suicídio. Um passo, apenas um passo.
E nunca mais sofreu.
Lia a frase. Não entendia. Anda mal nosso latim, não é mesmo? Agradeçamos Voltaire que nos esclarece com a tradução, não deixa-nos à luz da ignorância. Poucas coisas são piores – tratando-se de livros - do que quando pegamos um exemplar cheio de citações em língua desconhecida. De pronto abandono a leitura. Penso: "não foi feito pra mim, o autor queria os deste país mais do que a mim, que assim seja". Um leitor a menos e um espírito feliz a menos. Quem sabe dois, o meu e o dele, entretanto, é um risco em que incorremos,
O escrito em latim: trata-se de Deus falando, ao menos a bíblia diz que é o supremo. Este, dirigindo-se a seu filho querido, Oséias: “ordeno-te: pega uma puta e vá ter filhos da puta!”. Esta passagem demonstra um pouco do que eu chamaria de “o humor de Deus”, afinal, deve ser o sumo-humor, o supremo de todas as piadas mais insanamente indecentes. Deus pode fazer uma pessoa morrer de rir literalmente, enfim, quanta irrelevância.
Acendia mais um cigarro, infelizmente, o último, se quisesse mais teria de gastar seus últimos centavos. Comer ou fumar? Ficava com a segunda opção. Sempre. Olhava para os lados, aquelas paredes verdes o incomodavam, aquele sol o deixava com dor de cabeça, a música... Sempre voltando à cabeça... O sorriso. Tentava pensar em algo sério, distrair-se do pensamento habitual, mas a obsessão voltava sempre. Tudo parecia tão irrelevante que simplesmente não merecia ser pensado. Irrelevante demais.
Distração. Euforia ao contrário, angústia extenuante. Engraçado também era Jesus, mais do que a ironia de ter sido deixado ao léu por Deus era este expulsando demônios. Ora, melhor ainda de se saber é que este mesmo Jesus convinha que os judeus tivessem o famoso poder de exorcismo. Nada mais fácil para o diabo - o mesmo que tentou Jesus - do que entrar no corpo de algum mendicante mediante o pagamento de alguns trocados ou pães. Sem muito trabalho – talvez um pouco de atuação apenas – um judeu poderia expulsar dez diabos por dia.
Todavia, faz-se digno de nota que os diabos têm muito mau gosto ou algo assim, notaram já a predileção pelos mendicantes? Nenhum governador, nenhum senador ou mesmo profeta é invadido por esses possuidores.
Vende-se barato qualquer dogma, sempre foi assim, estranho seria um mundo onde fossem cobradas taxas exorbitantes para se ter acesso à “verdade” divina. Quem sabe, como as coisas vão de mal à pior, em pouco tempo para se ser adepto de algum culto tenhamos de pagar taxas cada vez maiores, felizmente o dízimo já nos basta para uma overdose de fé. Cultos maravilhosamente preparados, reuniões, missas e toda a parafernália por uma parcela diminuta de seus salário. Muito obrigado senhor.
Novamente irrelevância, pensava: como pôde permitir tantas coisas? O preço da justiça vale mesmo tanto sofrimento? Onde o mal principiou? Qual o princípio? Se todas as coisas vêm de Deus, ele foi autor do primeiro mal, a justiça deveria ter sido destinada a ele somente e pronto, assim, todas as coisas ruins que ocorrem desde sempre, tem na sua origem a dívida que o criador tem com todos nós. Ele é amor? Pois nem poderia deixar de ser.
Lembrava de todos seus entes queridos, todas as pessoas que importavam, as via como pedaços de carne podre, pensava como ficariam depois de carbonizadas, após abertas de dentro pra fora. Via sua mãe decepada, seu pai eviscerado, sua amada... O sentimento não deixava imaginar nada além de um rosto pálido... O que o levava às lágrimas, pensava na futilidade, irrelevância, porque tudo tão sem sentido? Não havia porque, será que isso se devia ao desequilibrio gerado pela dívida divina? Sofria, não havia como medir se mais ou menos que as outras pessoas, sofria. Lembrava, e a mistura da falta de razão da humanidade assim como da vida, somada ao fato de Deus não parecer mais que a origem do mal, o desesperançava, quisera nesse momento, mais do que em muitos de real desespero, morrer. Ter coragem para terminar com aquela existência inútil, enfadonha e solitária.
Via a si mesmo, aquele corredor verde escuro e vazio, teto cinza, com o chão velho acabado, cheirando a mofo. Havia perdido tudo, as coisas que importavam não estavam mais aqui, ela deveria estar dormindo, sem nem ao menos saber que ele nunca mais descansou. Os planos deram errado. Tentou, foi a única vez na vida que fez alguma coisa por si, pensando em outrem. Falhara. Perdera mais do que no início. Tudo não passava de material. Esquecera-se do espírito.
A música voltava à sua mente, aquele piano, aquele momento, aquilo o pertencia, haveria pra sempre na sua mente, aquele instante de felicidade, que nunca se apagaria, uma coisa boba, no meio da rua, o olhar dela, com os braços pra trás e o sorriso, ele em cima da calçada e ela na rua, na frente do prédio. Ninguém mais no mundo deve lembrar daquele momento. Aquele olhar, a face contra o sol, os olhos, o olhar... A maldita melodia daquele instante, aquela roupa que ela usava, tão parecida com ela mesma. Tão perfeito. Olha para o teto, clama, grita em voz alta, “Deus! Se você existe, deixa-me preso pra sempre naquele momento, ali eu conheci a felicidade”.
Silêncio.
A música para, o momento se esvaíra. Andava um passo... Sua mãe vinha chorando, perguntando por que tivera aquela vida de dor, mais um passo, seu pai, olhava com cara triste e perguntava: porque tivera de ser a causa da infelicidade de si e de outros? Via sua amada... Ela o olhava, sem dizer palavra, simplesmente dava as costas a ele. Todas as pessoas que havia conhecido em sua vida, gritando que ele deveria ter força, porém todas choravam. Fim do corredor. A porta que dá acesso ao terraço do prédio. Nunca havia chegado tão perto.
Via o chão, muitos metros embaixo, pensava que um passo seria necessário. Nunca mais sofreria por nenhum motivo. Nunca mais seria o motivo de decepção pra outras pessoas, nunca mais poderia machucar nem ferir ninguém. Nem mesmo fazer outros serem culpados de feri-lo. O mais importante: não mais veria uma lágrima dela... Ela o olha, percebe que é tarde demais, solta uma lágrima, você percebe que nunca fez ninguém feliz, ninguém tem porque agradecer a sua estúpida existência.
Esse é o momento mágico, de clarificação. Percebe que, na verdade, é justiça o que agora faz, deve acabar consigo mesmo como forma de expiar os pecados de si e as dores cometidas a outros. Não um pecado e sim a redenção máxima, isso é o suicídio. Um passo, apenas um passo.
E nunca mais sofreu.
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2 comentários:
q fofo
ele se mata
hauahauhaua
bom texto ^^
bjos
nossa daniel, tá depre
slow funeral doom
:p
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