Detestava naquele instante cada segundo vivido, cada coisa que havia um dia dado um passo para o abismo. Nunca tinha sentido tamanha revolta pela existência como um todo, queria que tudo se consumisse numa chama de muita dor e desespero. O silêncio o envolvia completamente, tão profundo que ouvia a penas a sua respiração ofegante, suava, sangue em suas mãos. Ódio em seu corpo. Parecia uma besta selvagem que mesmo ferida não larga a luta, não abandona o campo de batalha nem mesmo após a morte, apodrecendo na eternidade junto às armas.
Havia uma lânguida mulher em seus braços. A cólera lhe causava um furor, estava fora de si, enjoado, angustiado, explodindo de amargura e náusea. A misantropia invadia cada célula de seu corpo. Não conhecera a piedade por parte de ninguém, nunca houvera visto um ato de bondade, nunca tivera motivos pra exalar um pequeno sorriso. Sua imagem contrastava com a beleza da mulher em seus braços, toda vestida de branco, um longo vestido manchado de sangue. Estavam num campo vasto, com apenas uma árvore, nenhum ser humano próximo, se isolara assim por causa dos sentimentos contrários, os pássaros ao menos não faziam mal uns aos outros.
Naquela desoladora imensidão vazia e silenciosa, houvera um dia que havia sonhado com a chegada dela, com seu sorriso ela voltaria para ele e o tiraria daquela neblina vazia, porém, agora estava tudo terminado, ela nunca mais voltaria, trazendo de volta o rio de sol e a vontade de viver. Sentia a peste, doença, o odor de podridão exalando de cara poro. Em seus braços a criança soltava lágrimas, que queimavam seu rosto pálido de inocência morta.
Mirava aquele rosto desfigurado e belo. Olhe para mim! Começava a chover, antigos sonhos que a tempestade trazia, antigas esperanças, abandonadas havia muito. Naquele instante não era nada além de partículas de podridão, se esvaindo na chuva, a água lavava o sangue em suas mãos, a coroa de espinhos na sua testa tornava a ser verde... O no corpo dela parecia cada vez mais alvo com a chuva, mas tornava a sangrar... Os pregos em seu peito doíam, olhava as órbitas vazadas daqueles olhos castanhos que foram tão belos um dia...
A dor estava definitivamente instalada naquele receptáculo de mágoas, nunca seria diferente, não havia mais como se purificar, o grito mudo ecoava na sua mente, e o sofrimento aumentava cada vez mais. A fraqueza dela o tornava mais forte e fazia resistir à dor. Perdera tudo mais de uma vez, aquele corpo inerte em seus braços começava a não significar mais do que uma vida a menos para ele, esquecia-se tratar-se de sua amada, a que dividiria com ele pra sempre os gritos nos porões do inferno. O destino traçara de modo irônico, cruel e violento a sua existência. O definira.
O único momento semelhante à vida que tinha, era quando fechava os olhos e milhões de faces vinham em sua mente, todas as pessoas que havia visto, conhecido, que havia amado e odiado. Gente morta, apodrecendo, fogo e destruição. E ela... Sempre. Todas as vezes que respira, as narinas ardem, como se aquela brisa fosse fogo, enchendo seus pulmões de podridão fétida.
Ela nunca saberia. Não seria profanada mais ainda de sua pureza mórbida. Nunca sentiria nada novamente, assim era melhor, pensava. Nada havia a fazer até o final da eternidade, do que ficar ali parado, com você desfigurada nos braços, por toda a eternidade, chuva, depois sol... Será que depois de todas as suas partículas se desfalecerem,,. E você virar um amontoado de poeira em meus braços, o tormento ia acabar? Mas você definhava eternamente devagar. Inverno verão, silêncio e mais nada além dos seus gritos. Jogaria a sua cabeça para o lado, junto com as outras, do lado das outras Pérolas. Por vezes, quando o eterno ódio ficava um pouco ameno, tencionava se ali era o inferno.
Ela ali, em seus braços, sangue ainda vertia dos lábios carnudos.
...

2 comentários:
Um tréco bem trevoso!
splatter! hehehehee
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