sábado, agosto 19, 2006

A Quermesse...

"Perversidade... Caos e Desgraça..."


Quermesse,


do Fr. kermesse <>

s. f.,

festival beneficente, com bazar, no qual se leiloam as prendas oferecidas.






Acordava, já era tarde, naquela pequena cidade, quente, desolada, abandonada, terra sem lei. Olhava pela janela, derrepente um amontoado de gente na frente de sua casa, acordara mal aquela manhã, nem lembrava que estavam ali fazia dias, olhava aquele povo, fechava a janela, trancara-se em seu quarto.

Olhava seus livros... Apreciava vagarosamente as bordas deles... Poucos clássicos restavam naquela prateleira, certa vez numa discussão com um amigo sobre isso, dissera: os heróis de Homero ou Racine, os Aquiles e Agamenons, começam a me parecer muito do gênero bocejante. Podem me divertir durante um quarto de hora, mas logo depois estou pensando em outra coisa. Não tenho ânimo em ler sobre os costumes dos esquimós ou dos aborígines, esses povos são demasiado diferentes dos que foram meus amigos ou meus rivais. É verdade que muitos dos meus contemporâneos imaginam amá-los, porque julgam enaltecer-se os admirando. Quanto a mim, começo a perder todos os preconceitos enraizados na vaidade da primeira juventude. Assim, os amigos não disseram mais nada.

As pessoas na frente de sua casa estavam se dirigindo pra uma dessas procissões de interior, uma festa religiosa, destinada a dar alguma esperança aqueles seres que não tinham mais nada... Levavam foguetes e enfeites, alguns carregavam artefatos perigosos colados ao próprio corpo. Um pequeno garoto chamou a atenção, em particular devido ao pequeno tamanho e a quantidade de carga explosiva que levava consigo.

Havia uma quantidade tão grande de explosivos junto ao menino que certamente sairia voando se uma fagulha passasse perto dele. Ao lado de um pequeno jumento, mais carregado ainda. Rocinante voaria novamente, dessa vez mais alto acaso o moleque resolvesse se passar por Quixote.

Conhecia o pobre garoto, desde a infância, um crédulo, o que lhe diziam, tomava por verdades eternas e absolutas, como não sabia o que era mentir, cria que os outros tinham essa estranha e inexplicável demência. Seus pais, possuidores que eram de estranhas distinções, quem sabe tenham sido a gênese da peculiar psiquê do garotinho. Das miudezas de espírito a que eram acometidos, talvez a que mais causasse embaraços era a credulidade somada à inconstância. Se lhes diziam que alvo era o seleto, de todas as formas propunham-se a tornar suas vidas cândidas, honrosas e dedicadas, entretanto, no dia seguinte, lhes fosse imputado o sombrio como melhor, no mesmo momento tornavam-se lúgubres, pesarosos e pessimistas.

Certamente o leitor, se existir algum, perceberá várias criaturas ao seu redor que se encaixam nesse perfil ignóbil de credulidade. Igrejas, organizações, partidos e toda sorte de antros sonhadores recheados de devaneios estão cheio deles.

Voltara à janela, aquele espetáculo bizarro o instigava, via as pessoas e tencionava o porquê de elas estarem se submetendo aquilo. A imagem estava chegando, era o momento de emoção mais gritante, as pessoas choravam, gritavam, atropelavam umas às outras pra quem sabe poder tocar na santa e ter assim as suas vidas mudadas.

Criam com aqueles gestos poder resolver os problemas de sua vida... Caravana, formigueiro humano, estavam acampadas ali fazia dias, afinal, a imagem demorou pra chegar da capital até a cidade, houvera um problema no caminho. A Santa deveria ser trazida por meninas virgens, digamos que houve um pouco de falta no mercado desse produto, cada vez mais escasso...

A comida das pessoas acabou no primeiro dia, entretanto, ninguém passou fome, onde uma comia, todos se aproximaram. A solidariedade foi a única coisa que aprenderam, aquelas pessoas, sovinas a vida toda, e mesmo assim a praticavam somente naqueles dias e no natal. Desde pequeno acreditava que o egoísmo fosse a chave pro sucesso nas finanças... Via que não, aquelas pessoas não dividiam nem mesmo um copo d’água, mesmo assim, devido ao contexto de miséria desde a nascença nunca tiveram nada...

As condições no acampamento eram as mais precárias possíveis, o único lugar onde poderiam se banhar era um banheiro pequeno, sujo e abafado, construído ás pressas. O teto baixo, de zinco, amplificava o calor. A pequena janela de madeira não permitia a visão além do muro alto que se estendia à frente. Um clima depressivamente sujo, quente, com calor, abafado... Um banheiro velho de rodoviária seria uma mansão perto daquele lugar.

Olhava aquele povo sofrendo, sacrificando-se por uma esperança fútil, aderiam sem prova alguma à auto-mutilação moral, às cotoveladas para poder ficar mais perto da Santa. A vontade daqueles homens, mulheres e crianças era imensa.

Comparava todos àquele garoto do jumento... O jumento, única vítima dessa tragédia, pois não estava ali por vontade própria, isso ficava evidente ao olhar a expressão dele. Expressão e vontades de um jumento? Começava a ter idéias tolas.

Havia dormido demais, voltaria pra cama.


...

2 comentários:

Anônimo disse...

Muito legal...
Ja um clássico em seu estilo literário onde todos os contos tem a característica de começar como uma forte exploração de alguns costumes considerados normais, mas q na verdade são apontados com depreciação fudida e acabam numa grande reticência sem conclusão!!

Anônimo disse...

Você assistiu algum filme nordestino Vae?

;*