
"Represália
do It. represaglia
s. f.,
desforra;
vingança;
retaliação."
do It. represaglia
s. f.,
desforra;
vingança;
retaliação."
A vingança é um dos poucos sentimentos a realmente mover o ser humano. Talvez devido a isso não se enquadre nos sete pecados capitais. Perguntava-se, de onde proviria? Parecia muito mais uma espécie de ódio direcionado a alguma coisa, em geral, pessoas. Não conseguia enxergar mais do que um furor direcionado.
Todavia, excetuando aqueles dias do que poderia chamar “aversão gratuita a tudo e todos” – mulheres costumam apresentá-lo ao menos uma vez por mês, com certa regularidade – todo o ódio parecia ser direcionado.
Talvez houvesse uma maior vontade de potência na vingança, esta, nos movia a diferentes tipos de atitude, como por exemplo; a menina que após ser agredida por um namorado ciumento, ao invés de findar o relacionamento, resolve trair o cidadão em questão com o maior número possível de amantes. O jogador de futebol que cospe no rosto do jogador adversário após uma falta. Quem sabe até mesmo o namorado que resolve suicidar-se após a namorada terminar com ele.
Assim, podia ver ao menos essa diferença entre o ódio e a vingança. Consistia esta, exatamente no fato dos propósitos e ações gerados pela retaliação serem muito mais direcionados do que um simples sentimento de vontade de destruição.
Analisava isso, dentro do ônibus, naquela tarde chuvosa na qual, quem sabe devido ao verão, deixava transparecer um pôr do sol por detrás das árvores. Havia feito aquele mesmo caminho tantas e tantas vezes. Era capaz de lembrar de todas as casas daquele êxodo diário praticado entre a escola e a casa dia após dia. Agradecia ao menos, o fato de passar por um lago rodeado de grandes pinheiros. Morava num canto do mundo que fora abençoado.
Aquele havia sido um dia especialmente feliz no colégio. Voltava triunfante pra casa. Com as mãos e o rosto sangrando um pouco, mas a felicidade era muito maior para ele. Aconteceu que neste dia, o qual começara tão normal como qualquer outro. Ou seja, com os gritos histéricos de sua mãe para que não se atrasasse.
Neste dia tão comum, ele conheceu uma menina. Nova na escola, primeiro dia, por sorte sentamos lado a lado. A professora resolveu fazer trabalho em duplas. Por um desses acasos que a vida cria, um pouco antes de a professora começar a explicar o que deveríamos fazer houve um chamado urgente – teria sido da natureza?
Pudemos então conversar por um bom tempo. Claro, havia aquela espécie de paz que invade uma sala de aula sem professora, porém, apesar de não conseguir nem ouvir meus pensamentos, eu conseguia escutar a sua voz angelical.
Engraçado, percebo agora, que naquele momento ela não me contou o motivo pelo qual tinha trocado de escola. Grata coincidência, havíamos vindo da mesma escola. Nunca, entretanto, haviam se visto antes. Assim ao menos falaram um para o outro, pois ambos tinham trocados olhares secretos e velados por muito tempo. Pareciam ter gostado do que viram. Quando foi pegar um chiclete bolsa para oferecer à ela, apareceu em sua mochila um cd da banda favorita dela, estava ali fazia dias esquecido.
No final da aula já pareciam íntimos. Comeram juntos na cantina da escola no recreio. Final da aula, os dois pegavam o ônibus na mesma parada. Dividiram o guarda-chuvas dela, olhares e sorrisos encabulados. Chegamos, ela acendeu um cigarro, mais velha, com aquele ar maduro – para um menino. Ela deu o primeiro beijo. O primeiro beijo de verdade de minha vida, com aquele sabor delicioso de cigarro.
Acredito que tenha me viciado nesse instante, em cigarros. Perderia ainda muitos dias de sua vida observando o horizonte de sua janela, lembrando daquele e outros momentos, de quando fora feliz e como então se sentia vivo.
Estavam de mãos dadas no ponto de ônibus quando apareceu um grandalhão. Depois vim a saber que o tal havia sido o motivo pelo qual ela mudara de escola. Não falou nada, me deu um soco e empurrou. A briga havia começado.
Assim como começou terminou, quando menos percebi, ele simplesmente foi projetado ao chão. Só depois de limpar os olhos percebi o que estava acontecendo. Meu vizinho, irmão mais velho de um amigo meu, diga-se de passagem, meu vizinho de quase dois metros de altura, deu-lhe um soco que venceu a inércia e a gravidade. Bateu mais um pouco enquanto gritava: “vai bater no meu irmão”?
De fato, como vim a analisar, éramos parecidos, poderia se passar por meu irmão. Claro, eu, ele, o agressor, a menina e todos na pequena cidade de colonização italiana. O “grandalhão” foi embora. Agradeci, demos muitas risadas. Ali estava eu, naquele por do sol. Havia me vingado de todas as meninas que nunca tinham sequer reparado na minha existência para nada que não fosse dar risada. E do ex-namorado dela.
Isso sem contar que havia recebido uma promessa. A minha nova – e primeira – namoradinha, antes de subir em seu ônibus, chegou bem perto de meu ouvido e prometeu, com doçura, à noite passaria na minha casa e eu receberia um “tratamento especial”. Deu-me um beijo, subiu no ônibus.
Sempre ao ouvir a palavra vingança lembro com especial gratidão desse dia estúpido.
...
Todavia, excetuando aqueles dias do que poderia chamar “aversão gratuita a tudo e todos” – mulheres costumam apresentá-lo ao menos uma vez por mês, com certa regularidade – todo o ódio parecia ser direcionado.
Talvez houvesse uma maior vontade de potência na vingança, esta, nos movia a diferentes tipos de atitude, como por exemplo; a menina que após ser agredida por um namorado ciumento, ao invés de findar o relacionamento, resolve trair o cidadão em questão com o maior número possível de amantes. O jogador de futebol que cospe no rosto do jogador adversário após uma falta. Quem sabe até mesmo o namorado que resolve suicidar-se após a namorada terminar com ele.
Assim, podia ver ao menos essa diferença entre o ódio e a vingança. Consistia esta, exatamente no fato dos propósitos e ações gerados pela retaliação serem muito mais direcionados do que um simples sentimento de vontade de destruição.
Analisava isso, dentro do ônibus, naquela tarde chuvosa na qual, quem sabe devido ao verão, deixava transparecer um pôr do sol por detrás das árvores. Havia feito aquele mesmo caminho tantas e tantas vezes. Era capaz de lembrar de todas as casas daquele êxodo diário praticado entre a escola e a casa dia após dia. Agradecia ao menos, o fato de passar por um lago rodeado de grandes pinheiros. Morava num canto do mundo que fora abençoado.
Aquele havia sido um dia especialmente feliz no colégio. Voltava triunfante pra casa. Com as mãos e o rosto sangrando um pouco, mas a felicidade era muito maior para ele. Aconteceu que neste dia, o qual começara tão normal como qualquer outro. Ou seja, com os gritos histéricos de sua mãe para que não se atrasasse.
Neste dia tão comum, ele conheceu uma menina. Nova na escola, primeiro dia, por sorte sentamos lado a lado. A professora resolveu fazer trabalho em duplas. Por um desses acasos que a vida cria, um pouco antes de a professora começar a explicar o que deveríamos fazer houve um chamado urgente – teria sido da natureza?
Pudemos então conversar por um bom tempo. Claro, havia aquela espécie de paz que invade uma sala de aula sem professora, porém, apesar de não conseguir nem ouvir meus pensamentos, eu conseguia escutar a sua voz angelical.
Engraçado, percebo agora, que naquele momento ela não me contou o motivo pelo qual tinha trocado de escola. Grata coincidência, havíamos vindo da mesma escola. Nunca, entretanto, haviam se visto antes. Assim ao menos falaram um para o outro, pois ambos tinham trocados olhares secretos e velados por muito tempo. Pareciam ter gostado do que viram. Quando foi pegar um chiclete bolsa para oferecer à ela, apareceu em sua mochila um cd da banda favorita dela, estava ali fazia dias esquecido.
No final da aula já pareciam íntimos. Comeram juntos na cantina da escola no recreio. Final da aula, os dois pegavam o ônibus na mesma parada. Dividiram o guarda-chuvas dela, olhares e sorrisos encabulados. Chegamos, ela acendeu um cigarro, mais velha, com aquele ar maduro – para um menino. Ela deu o primeiro beijo. O primeiro beijo de verdade de minha vida, com aquele sabor delicioso de cigarro.
Acredito que tenha me viciado nesse instante, em cigarros. Perderia ainda muitos dias de sua vida observando o horizonte de sua janela, lembrando daquele e outros momentos, de quando fora feliz e como então se sentia vivo.
Estavam de mãos dadas no ponto de ônibus quando apareceu um grandalhão. Depois vim a saber que o tal havia sido o motivo pelo qual ela mudara de escola. Não falou nada, me deu um soco e empurrou. A briga havia começado.
Assim como começou terminou, quando menos percebi, ele simplesmente foi projetado ao chão. Só depois de limpar os olhos percebi o que estava acontecendo. Meu vizinho, irmão mais velho de um amigo meu, diga-se de passagem, meu vizinho de quase dois metros de altura, deu-lhe um soco que venceu a inércia e a gravidade. Bateu mais um pouco enquanto gritava: “vai bater no meu irmão”?
De fato, como vim a analisar, éramos parecidos, poderia se passar por meu irmão. Claro, eu, ele, o agressor, a menina e todos na pequena cidade de colonização italiana. O “grandalhão” foi embora. Agradeci, demos muitas risadas. Ali estava eu, naquele por do sol. Havia me vingado de todas as meninas que nunca tinham sequer reparado na minha existência para nada que não fosse dar risada. E do ex-namorado dela.
Isso sem contar que havia recebido uma promessa. A minha nova – e primeira – namoradinha, antes de subir em seu ônibus, chegou bem perto de meu ouvido e prometeu, com doçura, à noite passaria na minha casa e eu receberia um “tratamento especial”. Deu-me um beijo, subiu no ônibus.
Sempre ao ouvir a palavra vingança lembro com especial gratidão desse dia estúpido.
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Um comentário:
gostei do teu jeito de escrever.
O Alexandre me passou o link do blog.
:}
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